quarta-feira, agosto 19, 2009

Quantos caminhos para realizar um sonho
Quantas pessoas para nos ensinar um dom
Quantas palavras num papel...
Para descrever uma vida
Quantos passos para perder o sabor
O simples sabor da noite de verão
Quantos olhares para compreender o mundo
Quantas lágrimas para perceber a tristeza
Quanto tempo para entender toda uma vida
Quantos caminhos...
Quantas ruas e quantas estátuas temos de erguer
Para sermos nós próprios
Para sermos guerreiros em cada batalha
Quantas vezes temos de perder
Para ganhar o que está por vezes tão longe
Quantas...

Agosto de 2009.

Paris.
E eu aqui, no meio da cidade que toda a gente romantiza, a tentar perceber se a minha vida avança ou só faz pose.

A casa pequena, paredes grandes, janela virada para as galerias lafayette onde ainda se ouviam passos, risos e garrafas a bater em sacos de plástico. A cama tem um lençois amarelos. Eu sou só mais um, mas a cabeça teima em achar que estou a viver uma espécie de capítulo especial.

Tenho o caderno na mesa. Sempre o caderno.
Já vem comigo desde casa, trago dentro dele metade da minha alma em rascunho.

Antes de vir, escrevi:

“É tarde e parto para outro lugar
As memórias vão comigo
Para não me esquecer quem sou
De onde vim…”

Na altura pareceu-me frase de filme.
Agora, sentado aqui num quarto parisiense com o cheiro a corredor antigo, pareceu-me só um tipo a tentar convencer-se de que fugir para outra cidade resolve alguma coisa.

A verdade é que eu queria tudo:
Queria conhecer Paris, queria conhecer o mundo, queria conhecer-me a mim, queria amar-te, queria ser escritor, queria ser tudo ao mesmo tempo.
Vinte e tal anos na cara, excesso de sonhos na cabeça e um coração que ainda acreditava que a vida, no fundo, no fundo, ia correr bem.

Foda-se

Saí de casa.

A cidade ainda não tinha adormecido.
Paris à noite parece uma daquelas pessoas bonitas que sabem que são bonitas e nem precisam de se arranjar muito. As ruas antigas, cheias de pedra, carregadas de uma história que eu não conhecia mas sentia nos pés.

Escrevi depois:

“As ruas antigas únicas
Carregadas de romantismo
Em cada esquina vêem-se beijos longos
Abraços e lágrimas…”

E é mesmo assim.
Cada esquina parece um postal ilustrado: casais encostados a paredes, a pontes, a árvores, beijos demorados, como se o mundo fosse acabar ali mesmo.
Foda-se, que cidade indecente para quem está cheio de amor e ao mesmo tempo sozinho.

Caminho sem mapa.
Gosto da sensação de me perder.
A verdade é que não me perdia de verdade – Paris está cheio de placas, de linhas de metro, de turistas, de luz. A minha verdadeira confusão não é geográfica, é cá dentro.

Aqui, nesta noite quente de agosto, eu sinto duas coisas ao mesmo tempo:

  1. Uma puta de uma alegria por estar aqui.

  2. Uma puta de uma saudade de ti.

É como se o meu peito tivesse sido alugado a dois inquilinos ao mesmo tempo: o miúdo encantado com a cidade e o homem que já tinha medo de te perder.

Lembro-me de olhar para o Sena e pensar que aquilo podia muito bem ser uma metáfora barata da minha vida: um rio que segue, que leva tudo, que não volta, mas que brilha à noite com reflexos bonitos para enganar quem olha de longe.

Encostei-me a uma ponte num destes dias 
Vi os barcos a passar, cheios de gente a tirar fotografias
Nas margens, grupos de amigos, garrafas de vinho, música, risos grandes.

E eu ali, a viver uma cena que qualquer guia turístico descrevia, mas por dentro a viver outra coisa qualquer.
Um descompasso.

“Aqui… respira-se cultura.
Respira-se amor, transpira a verdade escondida.
Aqui… é tudo tão parecido comigo.”

Escrevi isso depois, mas naquela noite já o sentia.
Paris parecia-me uma versão visível daquilo que eu tinha cá dentro:
um misto de velho e novo, de luz e sombra, de gente perdida e gente que achava que sabia para onde ia.

Passava e perpassava pelas avenidas, a absorver tudo:

– o cheiro do metro
– o fumo dos cigarros à porta dos cafés
– o som das línguas misturadas
– vendedores ambulantes a dizer “bonjour, my friend” em todas as direções

Um mundo de culturas livres, e eu sentia que, pela primeira vez em muito tempo, o mundo lá fora combinava com a confusão cá dentro.

Mas, claro, tu estragas-me sempre a festa.
Ou melhor: a falta de ti.

Porque, no meio de tanta luz, a tua ausência faz sombra 
Cada casal que via era um lembrete.
Cada riso partilhado um eco daquilo que eu queria viver contigo.

Pensei:
Se estivesses aqui, isto seria perfeito.
Nós dois a andar pelas ruas, a rir de coisas parvas, a inventar histórias sobre as pessoas que passavam, a beijar-nos nas pontes.

Mas não estás.

E então Paris é, ao mesmo tempo, a cidade onde eu me sentia em casa e a cidade onde tudo me lembrava que me faltava alguma coisa.

É lixado estar num lugar destes, lindo mas com um coração em guerra.

Regressei a casa tarde.
Tinha o corpo cansado, os pés a latejar, a cabeça cheia de imagens novas, o peito cheio de saudade velha.

Sentei-me na cama com o caderno.

Escrevi:

“Paris…
Je t’aime…”

E depois parei.
Porque senti que não era só à cidade que eu estava a dizer isso.
Era à vida.
Era a ti.
Era a tudo o que ainda podia acontecer.

Tinha medo.
Claro que tinha.

Medo de não ser capaz de fazer nada do que sonhava.
Medo de ser só mais um gajo que volta de Paris com meia dúzia de fotos e nenhuma mudança verdadeira.
Medo de te perder.
Medo de me perder.

Mas naquela madrugada, pela primeira vez em muito tempo, senti também qualquer coisa parecida com coragem.

Ali, longe de casa, longe das rotinas, longe dos sítios onde sempre fui o mesmo, percebi que talvez eu conseguisse ser outra coisa.
Não outra pessoa, eu não queria deixar de ser eu, mas uma versão minha menos encolhida.

Fechei os olhos e ouvi o som abafado da cidade a entrar pela janela entreaberta.
Pensei: “Talvez eu também seja feito disto: ruas antigas, beijos que não dou, luzes que ainda não acendi.”

Por instantes, a tristeza e a alegria fizeram um pacto de tréguas dentro de mim.
Não era paz, mas era um intervalo suportável.

Peguei na caneta e escrevi mais uma vez, como se fosse um compromisso:

“Passo e perpasso pelas avenidas
E não me canso.
Em vez disso danço.”

Na prática eu não danço porcaria nenhuma.
Ando, tropeço, penso demais.
Eu ainda acredito que podia dançar com a vida sem levar sempre um pontapé nos joelhos.

Fechei o caderno.
Deitei-me na cama estreita, com o som de Paris lá fora.

E antes de adormecer, pensei :

– Se um dia eu me esquecer quem sou, que estas páginas me devolvam.
– Se um dia tu leres isto, que saibas: eu já te amava aqui, no meio de uma cidade que não fazia ideia de quem eu era.

Depois, deixei a madrugada acabar sozinha.

domingo, agosto 09, 2009

Paris...
As ruas antigas únicas
Carregadas de romantismo
Em cada esquina vêem-se os beijos longos
Abraços e lágrimas
As luzes da noite tocam as portas do céu
Iluminam este palco intenso de cultura
Onde em outros lugares é tão escuro para ver
Aqui... Respira-se cultura...
Respira-se amor, transpira a verdade escondida
Aqui... é tudo tão parecido comigo
E é tudo tão presente e antigo
Pessoas andam livres pelas ruas
É um mundo de culturas livres
Passo e perpasso pelas avenidas
E não me canso
Em vez disso danço...
São tantas as ruas únicas
Que não me perco
Cada uma tem um palco único
Cada uma um cheiro intenso
Paris...
Je t'aime...