depois veio o sabor do beijo
e é tão bom
tão doce
tão presente
no inicio tão desconhecido
depois...
depois como se fizesse parte do meu ser
como se precisasse dele para respirar
para ser eu
terça-feira, junho 23, 2026
domingo, junho 14, 2026
quarta-feira, maio 06, 2026
despidas
entre murmúrios e lamentos,
uma ferida aberta que não sara.
Às vezes parece que o mundo não anda,
apenas tropeça com os sapatos gastos
de quem já desistiu de chegar.
Esta minha mania triste
de procurar sentido
onde só há lixo,
contas por pagar
e gente a fingir que vive.
A noite essa encosta-se à janela
como uma velha amante cansada,
e eu fico aqui,
a escrever qualquer coisa
que talvez ninguém leia,
mas que ao menos vai sangrando
como eu
quinta-feira, março 05, 2026
vens aqui ler
as palavras que mastiguei
a vida que levei
que levo
diz-me
quem és tu ? o que procuras aqui !?
procuras talvez como eu
alguém que se compare a um farol
quando o mar está escuro
e o peito apertado
um voz que se faça ouvir
uma luz na madrugada
não para salvar
isso é conversa de livros
mas que te ouça
é isso
apenas ouvir-te
às vezes não precisamos das repostas
só de alguém
que fique ali
aceso
enquanto a madrugada passa
terça-feira, março 03, 2026
por entre todas as coisas
que fiz e não fiz
as que mais tenho saudades
são as que não acabei
como um sonho
de que acordas cedo demais
com a boca ainda húmida
de outra vida
há nelas uma luz suspensa
um quase...
não são muitas
são suficientes
para me acordarem
às três da manhã
talvez se as tivesse terminado
teriam morrido
como morrem as cartas
quando finalmente são enviadas
os emails
os sms
assim ficaram abertas
como que se respirassem
como as janelas viradas para o mar
que nunca atravessei
mas eu volto a elas
com as mãos gastas
a mesma teimosia
a lembrança
há coisas
que só continuam belas
quando não se cumprem
e talvez
o que me dói
não seja não as ter acabado
mas saber que nelas
ainda estou lá inteiro
quinta-feira, fevereiro 26, 2026
nunca deixei
de a olhar
sinceramente ela não prometia nada
nem salvação
nem futuro
só estava lá
eu, cá em baixo
uma caneta na mão
ou uma máquina de escrever
o computador
o corpo gasto
depois o papel
mas as mãos
a cheirar aos mesmos dias usados
e a noite a cair devagar
a lua nunca me pediu
nem julgou
não explica
ah... mas as pessoas sim
mesmo sabendo
que nunca vou pisar a lua
mesmo assim
ela ficou ali
não como um destino
mas a eterna confidente
nunca me pediu nada
não tentou salvar-me
não fez perguntas
limitou-se a ouvir
as noites mal dormidas
as frases tortas
os dias gastos
eu sempre falei pouco
ela também
e isso bastava para nós
terça-feira, fevereiro 24, 2026
ainda não era a tarde certa
apesar do sol entrar pelas jantelas
as sombras reproduziam-se
num chão de madeira cansado
quando olhava
ofuscava-me
a luz batia-me na cara
como quem diz
vive
isto é o que sobrou
fechei os olhos
não para dormir
mas para sentir
aqueles dias no dojo
em que a luz
era a melhor forma
de verdade
e ali
a verdade
não precisava de palavras
quinta-feira, fevereiro 19, 2026
jornais velhos e antigos
papeis amarelados
mortos com vidas passadas
criticismo
uma pilha de jornais
copos vazios e pontas de cigarro no chão
ouve-se ao longe um miúdo que grita pela mãe
ela responde
o beco cheira a mijo
uma velha vem à janela com medo
um medo de uma morte lenta
não há nada aqui para ninguém
tenho saudades dos velhos telefones
aqueles que levantava o auscultador
e o mundo ficava suspenso
tinha de rodar a roda no centro
para marcar um numero de cada vez
como quem ainda pensava
ás vezes a meio do numero, já não queria falar com ninguém
desligava
percebia-se a verdade
era simples mas não era estúpido
agora essas coisas
tornaram-se simples demais
banais demais
as coisas perderam peso
as palavras também
e com essas banalidades vieram as redes sociais
outra merda sem jeito em que as pessoas
gritam palavras vazias
para outro grupo de pessoas ainda mais vazio
uma latrina iluminada
ninguém escuta
ninguém sente
todos falam
mas esses telefones
parecia que ouvia o silêncio a julgar-te
era um compromisso ligar a alguém
não havia dedos nervosos
nem likes
nem essa masturbação digital
agora tudo é fácil demais
as pessoas falam sem pensar
amam sem sentir
fodem sem se tocar
a verdade é que ninguém quer silêncio
ninguém aguenta estar sozinho
todos berram
para não ouvir o vazio que trazem lá dentro
chamam a isso progresso
eu chamo-lhe suicidio lento
quarta-feira, fevereiro 18, 2026
se bebesse
era impossivel ser eu
um copo de vinho
mais um copo de vinho
não sei quanto tempo iria durar
mas vejo-me a bater palavras na máquina de escrever
cigarro após folha
folha após cigarro
cerveja ou vinho
uma moda da altura
revejo-me em sombras
talvez uma vida antiga
sempre um copo a meio
uma frase a meio
uma desculpa a meio
mas se bebesse
talvez fosse mais fácil
mentir-me
fico sóbrio
a assistir
à lenta decomposição
do que chamam a vida normal
terça-feira, fevereiro 10, 2026
em que percebes que mudaste
dás conta que já não tens força
para fingir
em que entendes que falhaste
ou cresceste
da mesma forma quando deixas cair um copo no chão
sabes aquele momento
em que te escorrega da mão
não é o barulho a partir-se no chão
é o segundo antes
aquele instante miserável
em que sabes
que não o vais apanhar
pode ser numa segunda-feira de merda
num sábado gasto, num dia qualquer
apenas sabes que no dia seguinte
nada encaixa
a cama é a mesma
o espelho não
e nada vai ser igual ao que era antes
esse momento chega lento
mas quando te apercebes
o copo não cai de repente
ele vai-se soltando
gota a gota
erro a erro
silêncio a silêncio
durante dias
semanas
meses
até que os dedos desistem
quando parte no chão
não gritas
não choras
olhas
e percebes
que já andavas a quebrar
há muito tempo
domingo, janeiro 04, 2026
Em 1995
Lisboa cheirava a gasóleo
Cigarros baratos
E a qualquer coisa podre que vinha do tejo
Quando a maré estava baixa
Eu era um puto
Com ténis cansados
E sonhos grandes demais para o bolso das calças
Andava de comboio com bilhete
A fingir que não via o pica
Como se isso já fosse um treino para a vida adulta
O Rossio era um sítio sério
Cheio de homens cansados
Mulheres com sacos de plástico
E putas discretas
Que sabiam mais sobre o mundo
Do que todos os professores juntos
Os velhos ainda jogavam à sueca
Com copos de bagaço
E histórias da tropa
Poucos falavam de sentimentos
Isso era coisa de ricos
Ou de malucos
Eu aprendia tudo
Como se aprende a levar murros
Devagar
À custa de erros
E com vergonha incluída
Havia lojas de música na rua
Cassettes piratas
Guns N’ Roses
Nirvana
Metallica
Xutos
Tudo misturado
Como se o mundo estivesse a ensaiar
Qual seria o próximo desastre
As raparigas fumavam às escondidas
E falavam de fugir
Eu queria conhece-las, beijá-las
Mas era mais timido
Mal sabia falar
Por isso escrevia merdas num caderno
Como quem confessa pequenos crimes
A minha mãe
Era o chão firme
A única voz estável
Num mundo que abanava
Apoiava-me em silêncio
Como quem sabe que amar um filho
Às vezes é só não o deixar cair
O meu pai quando o via
Bebia demais
Não foi um vilão
Foi só ausente
Que é outra forma de ferida
Mais difícil de explicar
Aprendi cedo
Que as famílias
Também se partem
E que ninguém te ensina como lidar com essa merda
Acho que os amigos e a rua trataram do resto
Os adultos fingiam saber o que faziam
E eu percebia que ninguém sabe porra nenhuma
Só finge melhor com a idade
Acho que foi por isso que fui para o karate uns anos antes
Não para ser duro
Mas para não ser fraco
Num mundo que não perdoava ninguém
Naquele tempo o dojo cheirava a suor
A respeito
E a regras simples
Ali se caías
Levantavas-te
Não havia conversa
Aprendi a conter a raiva
A respirar antes do golpe
A perceber
Que perder o controlo é sempre derrota
Depois vinha Lisboa outra vez
O comboio
Feira da Ladra
Raparigas a fumar
Com olhos de fuga
E música pirata
A tentar dar sentido às horas
Em 1995
Lisboa não prometia futuro
Prometia resistência
Aprendi cedo
que sobreviver
já era uma forma de vitória
Poucos falavam de yoga ou meditação em 95
Muito menos para putos
Mas eu precisava
De um lugar
Onde o corpo baixasse a guarda
E a cabeça
Não tivesse de fingir
No karaté
Aprendi a enfrentar
Na meditação
Aprendi a ficar
Uma ensinou-me a sobreviver à rua
A outra a sobreviver a mim
Cresci assim
Hoje
Quando volto às mesmas ruas
O puto ainda anda comigo
Menos tenso
Mais consciente
Aprendi que a força sem consciência
É só herança mal resolvida
E que sobreviver em Lisboa não era ser duro
era saber quando fechar os punhos
e quando os abrir.
quarta-feira, dezembro 31, 2025
As pessoas falam mais baixo com o calendário
Talvez como se fosse Deus
“No próximo ano é que vou mudar de vida”
“Vou fazer dieta e comer melhor”
“Vou ser uma pessoa melhor”
Claro que sim
O tipo do café continua a tirar cafés com a mesma cara fodida
A mulher da limpeza continua a apanhar os cinzeiros como se fossem pecados
O chefe continua a mandar mails às 18h59
E tu continuas a acordar cansado a meio da noite
Com a sensação de que alguma coisa ficou por viver
E não sabes o quê
Lá fora vão-se enchendo copos de espumante barato
Vestem-se lantejoulas por cima de velhas frustrações
As pessoas contam regressivamente...
Como se 10, 9, 8… fosse dinamite pronto a rebentar com a merda do passado
Mas quando o fogo de artifício acaba
Só ficas tu
O teu corpo usado
O frigorífico meio vazio
A conta bancária meia morta
E a mesma saudade de coisas que nem sabes nomear
Não vai aparecer ninguém à meia-noite
Para te salvar da tua própria cabeça
Não vai cair do céu um novo contrato
Um amor novo
Um cérebro novo
No máximo
Se tiveres sorte
Um abraço decente
Um copo que não esteja partido
Uma gargalhada honesta
Daquelas que não ficam bem na fotografia
A verdade é esta:
O novo ano não existe
É só o mesmo cão velho
Com um número novo na coleira
O que pode ser novo
Se quiseres mesmo
Não é o ano
És tu...
Não aquela versão iluminada dos cursos motivacionais
Mas o tipo que decide num dia qualquer de janeiro
Que já não se volta a encolher tanto
Já não diz sim quando quer dizer não
Já não abre a porta a quem entra só para foder a tua paz
E depois vai-se embora com o tapete
Talvez este ano
Não consigas ser feliz
Que palavra de merda, “feliz”
Mas quem sabe
Consigas ser um bocadinho menos cobarde contigo mesmo
Tomar um café sem te odiares tanto
Dizer “não quero”
Sem justificar tudo com três páginas
Talvez este ano
Não encontres o amor da tua vida
Mas consigas amar melhor os miúdos
Ou o teu silêncio
Ou o teu corpo cansado
Sem o tratar sempre como lixo
No fim do ano
Quando estiverem outra vez a gritar
“Feliz ano novo!”
Tu faz o seguinte:
Agarra num papel qualquer
Escreve só uma coisa
Uma pequenina
Do tipo:
“Não vou mentir tanto a mim mesmo.”
Dobra o papel
Mete no bolso
E vai viver
Sem arcos de luz
Sem preces ao calendário
Sem grandes merdas
Só tu
O velho ano disfarçado de novo
Um coração amassado
E uma teimosia qualquer em continuar aqui
Não é bonito
Não é épico
Mas às vezes
É o suficiente.
sexta-feira, dezembro 12, 2025
Entre uma volta e outra
Há sempre alguém que almoça de pé ao balcão
Como um coração encostado a uma vitrine
A vida a acontecer là fora
O mundo a seguir em frente
Há pessoas assim
Atravessam-se no dia
Como quem atravessa na rua um sinal vermelho
Pessoas apressadas e simples
Passam por mim como dias da semana
Carros, notícias, contas, ruídos
Merdas
Talvez viver seja isto
Aceitar que a vida é apressada e simples
Tornar-se mais alguma coisa
Abrigar as tempestades por dentro
quarta-feira, dezembro 03, 2025
Acho que coloquei o dia às costas
Como todos os dias mas com mais cuidado
E saí à rua
Não saí com pressa de chegar a algum lugar
Mas saí para não deixar que a minha alma
Chegasse atrasada à vida
Dei conta que às vezes me atraso
E tenho medo de me perder
Medo de me sentir cansado
É que o mundo lá fora corre
Com pressa de chegar a lado nenhum
E deus por vezes pergunta
Então? Quando é que voltas para casa?
E eu finjo que não ouço
Arrumo a alma em prateleiras tortas
Digo-lhe que ainda tenho coisas para fazer
Que há contas para pagar
E medos para adiar
Mas no fundo sei
Que cada vez que o sol se vai
É um bilhete que se rasga
Uma partida que adio
Talvez um dia responda:
Deixa-me só acabar este abraço
Este café
Um poema
E volto
terça-feira, julho 22, 2025
O Universo revela-se
Como nas histórias perdidas entre a sombra e a luz
Aquele mundo encantado onde as folhas dançam
Onde os poemas ecoam
Por entre as ruas silenciosas, onde o vento ainda sussurra o teu nome
E eu pergunto onde está o teu abraço ?
O calor da tua voz que já não toca o meu ouvido ?
O perfume suave que ficou no ar ?
Como uma lembrança que não sabe partir
Ah, como as horas se arrastam sem ti
Em cada esquina que viro, cada sombra que encontro
Carrega a tua ausência como uma lágrima seca
E as estrelas...
Que em silêncio testemunham a minha saudade
Num grito mudo que ecoa em todos os cantos da minha alma
segunda-feira, novembro 04, 2024
nos lugares onde a luz não chega
espera uma respiração silenciosa
presente no espaço entre os meus pensamentos
Sigo então os limites da memória
tal como os dedos numa cicatriz
vou tocando os momentos guardados
nos recônditos ocultos do meu coração
Mas...
uma maré incessante de vozes
mas dentro deste silêncio
Escrevo não para ser ouvido
mas para sentir o peso do alivio
para nomear as sombras
e deixá-las fluir, livres, na noite