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quinta-feira, março 05, 2026

 

Há noites em que escrevo sem saber bem para quem. Não penso em quem vem aqui ler, nem se partilhas. Escrevo porque a cabeça não se cala e porque há coisas que, se não saírem, ficam a fazer eco cá dentro.

Às vezes imagino que alguém chega aqui por acaso, abre estas palavras e fica a olhar para elas como quem olha para uma luz ao longe. Não uma luz que salva isso é fantasia bonita demais para a vida real mas algo que simplesmente está ali. Presente.

Talvez seja isso que todos procuramos nestas madrugadas: não respostas perfeitas, não frases sábias, mas um lugar onde alguém já passou pela mesma escuridão e deixou uma marca no caminho.

Se chegaste aqui agora, talvez não seja coincidência nenhuma. Talvez só precises, como eu às vezes preciso, de saber que há outra pessoa acordada no mundo a tentar perceber a mesma coisa.

Nada mais do que isso.

Dois desconhecidos
acordados na mesma madrugada
a ouvir o silêncio passar.

domingo, janeiro 04, 2026

 

Acordei a pensar em 1995, o que é sempre um mau sinal. Dizem que quando a cabeça vai buscar anos específicos é porque alguma coisa antiga voltou a doer. Fiquei deitado uns minutos a olhar para o teto, levantei-me, deitei-me novamente a tentar perceber como é que um puto do Cacém aprendeu tão cedo a fechar os punhos e a respirar ao mesmo tempo.

Lembro-me do karate não como vitória, mas como contenção. Não era para bater em ninguém, era só para não rebentar por dentro. A meditação veio depois, quase em segredo, como quem descobre um esconderijo dentro do próprio corpo. Ninguém falava disso, mas eu precisava de um sítio onde a raiva baixasse de volume.

A minha mãe aguentava o barco como podia. Às vezes é só isso que precisamos, que o barco continue a não se afundar. Ainda acordo de vez em quando a pensar nisto, sobretudo quando a casa está em silêncio e os miúdos dormem.

Percebo agora que muita coisa do que sou nasceu ali na rua, no dojo, no meu  quarto a respirar devagar. Não virei santo, nem exemplo de nada. Virei só um homem, pai.

Escrever isto não muda 1995. Ajuda-me a ter sono e talvez a não repetir o que veio de lá. Para esta madrugada, já chega.

segunda-feira, dezembro 22, 2025

Gosto do cheiro do papel. É uma coisa subtil, quase invisível, mas está lá. Tem dias que cheira a antigo, a tempo, a algo que não tem pressa. Escrever assim ainda me parece um ritual, não uma tarefa. Hoje em dia, com os computadores, tudo se tornou mais fácil, mais rápido, menos formal e também mais vulgar. As palavras saem limpas demais, direitas demais, como se não tivessem passado pelo corpo, como se não saissem cá de dentro.
Mas a caneta de aparo é outra história. As fountain pen. Essas não perdoam distrações. Obrigam-me a abrandar, a sentir o papel, a aceitar o erro. A tinta escorre, falha, mancha. Fica nos dedos... Isso importa. Quando acordo de manhã e ainda vejo aquelas marcas azuis ou pretas na pele, lembro-me que estive em algum lugar durante a noite. Não foi só insónia. Não foi só tempo perdido. Estive lá dentro, a mexer em coisas que não sei explicar.
A máquina de escrever é a mesma coisa. Um ritual diferente, mais barulhento. Ultimamente não tenho escrito nela, mas continua a ser um lugar quase romântico só meu. Não romântico de filmes, mas romântico no sentido de refúgio. Aquele barulho seco das teclas, o martelar constante, o sino no fim da linha. Não dá para escrever em silêncio, e talvez seja por isso que gosto. O barulho ocupa o espaço onde a cabeça costuma fazer demasiada conversa.
Na máquina não há correcções bonitas. Há erros riscados, papel amassado, folhas de lado. Há cansaço nos dedos e nas ideias. Mas há presença. Cada letra é um gesto físico. Cada frase pesa qualquer coisa.
No fundo, seja com a caneta de aparo ou com a máquina de escrever, o que eu procuro é o mesmo, um sítio onde escrever que ainda deixa marcas. No papel, nos dedos, em mim. Um sítio onde o que escrevo não desaparece com uma combinação de teclas no computador. Onde o barulho, a tinta e o cheiro me lembram que estive acordado, vivo, e que não deixei a noite passar em branco.

quarta-feira, março 18, 2020

Acordo no escuro sem saber bem porquê. Não há barulho nenhum, nenhum sonho estranho que eu me lembre, nada. Só esta sensação de estar a cair e ser interrompido. Estiquei a mão à procura do telemóvel na mesa de cabeceira, carrego no botão. 3h23. Foda-se! Claro. Nunca são quatro da tarde, é sempre esta merda de hora.

Fico deitado uns segundos a olhar para o ecrã, como se ele tivesse alguma resposta. Não tem. Duas notificações sem sentido, um e-mail qualquer, uma app a dizer que devia ter meditado. Desligo. O quarto volta a ficar negro. Fecho os olhos outra vez, mudo de posição, virar para o outro lado. O corpo já acordou, a cabeça também. Se ficar aqui, vou só enrolar-me nos lençóis a pensar nas mesmas merdas de sempre.

Sento-me na cama. As costas protestam, faz 6 anos que não meto os pés no dojo as pernas doem-me, a necessidade extrema de treinar, o colchão conhece demasiado bem o molde do meu corpo. A casa está completamente calada. Não é só o silêncio da noite, é o silêncio deste ano, menos carros, menos gente, menos tudo. Agora toda a gente dorme em casa, ou finge. Os miúdos hoje não estão aqui, estão com a mãe. A ausência deles aumenta o eco, expande a tristeza.

Levanto-me devagar, caminho no escuro como quem já fez este percurso demasiadas vezes. Chego à cozinha, acendo a luz fraca do exaustor. A luz amarela desenha sombras feias na parede, realça a loiça que ficou a secar, o pano molhado esquecido na mesa, um íman no frigorífico com a foto deles.

Abro a torneira, encho um copo de água mas lembro-me logo que esta água do Montijo é uma merda, tem mais calcário que o deus me livre, encosto-me ao balcão enquanto bebo. A água está fria, escorrega pela garganta, não resolve nada. Penso que o mundo anda em pânico com medo de morrer e eu, às três  da manhã, tenho mais medo de continuar exatamente assim durante anos. Pouso o copo, passo a mão pela cara, suspiro fundo, como se isso ajudasse a empurrar o ar para dentro.

Vou para a sala. Acendo outra luz fraca. A sala à noite parece ainda maior, como se o silêncio afastasse os móveis uns dos outros. A mesa, o portátil fechado, o carregador enrolado, o caderno, uma caneta, um copo vazio do café da tarde. Trabalho aqui desde que começou esta palhaçada da pandemia. O que antes era sala agora é escritório, refeitório e consultório de crise existencial, tudo aqui na minha casa, a unica coisa que me mantém alegre é ver brinquedos espalhados por todo o lado, sinónimo de que os putos brincam, amo-os.

Sento-me no sofá. Fico uns segundos sem fazer nada, só a ouvir o prédio respirar: um cano, um passo lá em cima, um carro ao longe. Depois agarro o caderno para mim e abro-o. As páginas estão cheias de outras noites como esta. Poemas, frases, desabafos, tudo misturado. Vejo letras do início deste ano. É como folhear o meu historico clínico.

Pego na caneta. Não penso muito, começo a escrever porque sei que se não escrever fico só aqui sentado a aumentar a pressão no peito. Escrevo que acordo outra vez a meio da noite, que olho para o telemóvel, que vejo as notícias, que o mundo está à rasca com um vírus e eu continuo à rasca com a minha cabeça. Escrevo que toda a gente diz “vai passar” e que eu já ouvi essa merda antes, em outros contextos, e sei que às vezes passa mas não melhora – só se transforma noutra merda qualquer.

Penso no trabalho. Puta que os pariu, passo os dias a aturar incompetentes preso a videochamadas, tickets, programação de merda, mensagens, “podes ver isto com urgência?”, “é importante”, “é crítico”. Trabalho mais horas em casa do que antes, porque o computador está sempre ali, a meio metro de mim. Se respondo, sou competente. Se não respondo, sinto-me culpado pela incompetencia deles. Não há fronteira nenhuma entre “estar em casa” e “estar a trabalhar”. É tudo o mesmo sítio, a mesma cadeira, o mesmo cansaço.

Penso nos miúdos. Quando eles estão aqui, há barulho, desenhos, perguntas, discussões sobre filmes, gargalhadas, birras, pratos sujos, vida, vida é isso que existe quando eles estão aqui. Faço o pequeno-almoço, digo para lavarem as mãos dez vezes, tento ser pai e mãe porque a mãe não quer saber, tento não falhar demasiado. Quando não estão, como hoje, a casa parece um cenário depois de alguém desmontar a festa. As coisas estão arrumadas demais, o silêncio sobra.

E, como se não bastasse também apareces tu. Não preciso de fazer esforço. Basta estar acordado a esta hora que a tua memória vem sozinha. Já não é o choque dos anos anteriores, mas também não é distância. É uma presença difusa, uma sombra que se senta ao meu lado como se tivesse lugar marcado, já não te vejo há anos, mas quando envias mensagem a dizer que tens saudades... foda-se cai-me tudo. Vejo flashes rápidos, uma conversa, um café, o teu sorriso, um toque, um dia qualquer em que eu ainda acreditava que podiamos ter uma vida.

Fecho os olhos por um instante, deixo isso passar pelo corpo, abro de novo e escrevo mais uma linha qualquer sobre saudade, sobre algo que já acabou mas continua a morar aqui. Não preciso de ser bonito, só preciso de ser honesto. É isso que tento fazer não mentir no papel, pelo menos.

Pego no telemóvel, por impulso abro as notícias. Vejo números de infetados, de mortos, gráficos, especialistas em tudo, gente a gritar em caixas de comentários. Fico cansado ao fim de trinta segundos. Fecho. Abro o bloco de notas, leio uma frase qualquer que escrevi há meses, sobre o ar ficar irrespirável, sobre palavras acumuladas no peito, sobre não caber bem neste mundo. Dou um sorriso curto. Sou consistente na desgraça, pelo menos. 

Pouso o telemóvel na mesa, com o ecrã virado para baixo. Não quero ver mais nada.

Volto ao caderno. Escrevo que o mundo está com medo de morrer e eu tenho medo de continuar assim, que o tempo todo em casa está a dar demasiada oportunidade para ouvir a minha própria cabeça, que há dias em que tudo parece suportável e outros em que respirar parece trabalho a mais. Escrevo que sinto falta deles a correr pela casa, a chamar “papá” por tudo e por nada, e que isso, por mais cansativo que seja, ainda é a única coisa que me amarra à realidade de forma decente.

Fico alguns minutos calado depois de pousar a caneta. Sinto o corpo mais cansado do que quando me levantei da cama. Não há epifania, não há paz, não há luz divina. Há só uma pequena sensação de que aquilo que estava a rodar cá dentro já não está totalmente preso. Está em cima do papel, o que é ligeiramente menos sufocante.

Fecho o caderno e levanto-me, apago a luz da sala, volto para o quarto. Deito-me outra vez, no mesmo lado da cama de sempre. O colchão volta a encaixar o meu peso. Olho para o teto que não vejo, porque está escuro, mas sei exatamente como é. Penso que amanhã vou acordar, trabalhar, responder a e-mails, talvez ir ao supermercado, buscar os miúdos, ouvir mais notícias sobre números e curvas e merdas que eu não controlo.

sexta-feira, novembro 30, 2018

Acordei às três e quarenta e dois, outra vez...

O relógio brilhava no escuro como se me estivesse a gozar:
“Olha ele, o poeta da merda, mais uma noite sem dormir.”

Levantei-me devagar, aquele peso de quem já viveu vidas a mais dentro da mesma pele. A casa estava silenciosa, os miúdos a dormir, o mundo a fazer de conta que é normal. Fui à cozinha, abri o frigorífico, fechei o frigorífico. Nem fome, nem sede. Só aquele buraco no peito que já devia pagar renda.

Sentei-me à mesa com o caderno, aqueles cadernos de capa preta, compro-os as quantidades. A velha história.
Caneta, papel, e um tipo de quarenta e tal anos que ainda escreve como se tivesse vinte e estivesse prestes a explodir de amor e de medo.

“Se eu não fosse seria um sinónimo de coisa nenhuma”, escrevi num poema recente. E parei.
Conhecia aquela voz. Era minha, mas de outro tempo.
Tanta folha branca rasgada, tanta madrugada que cheira a nada e a ti ao mesmo tempo.

Tu.
Caralho, tu outra vez.

Não estávamos juntos há anos, mas continuavas a aparecer na mesma hora: entre as três e as quatro, quando o silêncio da casa fica grosso como fumo de cigarro barato e o corpo decide lembrar-se que tem coração.
Um coração burro, insistente, desses que não lê o contrato da vida e assina tudo o que aparece.

Agarrei na caneta com mais força.
Senti o velho ritual: primeiro vem a saudade, depois vem a raiva, depois vem a poesia a tentar salvar o que resta.

— Vai passar — murmurou uma parte de mim.
Mas eu conheço bem essa frase.
“Vai passar e quando passar vou-me embora”, escrevi no caderno.
A merda é que passou, eu continuei aqui e nunca fui embora de lado nenhum.
Fiquei preso aqui, na mesma pele, na mesma ausência.

Há uma suavidade que permanece nos lugares onde a luz não chega.
Tu eras essa suavidade, foda-se. O problema é que ao mesmo tempo eras a ferida aberta debaixo dela.

Lembrei-me das noites em que eu dizia que só queria um abraço, um beijo, qualquer coisa, e vinha em troca um silêncio cheio de medos teus. Essa tua parte racional mais neutra, faz com que decides mais com a cabeça do que com o coração, isso sempre me pareceu um crime perfeito: matava-me devagar, sem deixar provas.

Encostei as costas na cadeira, olhei para o teto como se Deus tivesse lá deixado um post-it esquecido aqui por cima.

— O que é que eu ainda estou aqui a fazer?

A resposta veio como sempre: escrever.
Escrever é a forma que arranjei de não morrer afogado naquilo que sinto.
Escrevo para lembrar que vivi. Para lembrar que amei como um idiota.
Escrevo porque quando não escrevo, a tristeza cresce como erva daninha na cabeça.

Lembrei-me de quando decidi deixar de comer carne porque percebi que o verdadeiro animal era eu.
Continuo a pensar o mesmo.
Continuo a achar que a humanidade é um erro ortográfico que alguém se esqueceu de corrigir.
A única coisa que presta, às vezes, é isto: um tipo sozinho à mesa, a sangrar palavras para um caderno, enquanto toda a gente finge que está tudo bem.

Pensei no miúdo que fui, naquele puto de quinze anos que te beijou no elevador, faminto de vida que tu amaste sem filtros.
Matei esse cabrão algures no caminho, asfixiei-o devagar com empregos, contas, obrigações, responsabilidades, reuniões de merda, senhas retiradas em repartições públicas e conversas vazias sobre o tempo.

Mas há noites... há noites fodidas, como esta, em que ele volta.

Volta quando escrevo “Deste modo eu penso em ti como se a complexidade da vida estivesse em descrever-te”.
Volta quando confesso que ainda tenho fome da tua boca, mesmo que já só exista na memória.

É ridículo.
Um homem feito, pai, trabalhador, a falar sozinho na cozinha com um fantasma.
Mas é isso ou enlouquecer de vez.

A caneta recomeçou a mexer-se sozinha:

Numa madrugada já rasgada pelo tempo
Onde o silêncio se confunde com o ar
Eu noturno divago sobre mim

“Numa madrugada já rasgada pelo tempo
Onde o silêncio se confunde com o ar, eu noturno divago sobre mim”

Li em voz baixa.
Soube-me honesto.
Soube-me cruel.
Soube-me pouco.

— Foda-se, isto não chega.

Queria gritar mais alto. Queria escrever como quem parte um copo contra a parede. Queria prender-te ao papel de vez, como quem agrafa um aviso na porta do Universo: “AQUI MORREU UM AMOR DO CARALHO! DO CARALHO”

Mas a verdade é que eu não sei matar-te.
Nunca soube.

O máximo que consigo é isto: transformar-te em poema, em prosa torta, em capítulo de livro que ninguém sabe se vai ficar pronto. Há quem chame a isto arte. Eu chamo sobrevivência, a minha sobrevivência.

Acendi a luz fraca da sala, aquela que não acorda ninguém.
Olhei em volta.
A casa, as coisas, os objetos, o sofá onde às vezes me deito a pensar que a vida podia ter sido outra, se eu tivesse sido menos medroso, ou se tu não tivesses sido sempre tão racional.

Eu, tu, as probabilidades falhadas.
Podíamos ter sido tudo.
Fomos quase.
E o “quase” é uma palavra fodida: pesa mais do que o “nunca”.

Voltei ao caderno.

Escrevi:

“E escrevo, escrevo tudo o que vejo
Escrevo tudo o que sinto”

Olhei para a frase e percebi que já a conhecia, de outra madrugada, de outro ano, de outro eu.

Estava tudo ligado: 2003, 2005, 2010, 2015, hoje.
O mesmo homem, em versões diferentes, a bater nas mesmas paredes invisíveis.

Ri-me sozinho.

— No fim ficam sempre as palavras e uma mão cheia de ilusões. Ou então não.

Fechei o caderno.
O mundo lá fora começava a ficar claro devagarinho, aquele cinzento sujo antes do dia decidir que cor vai usar.

Levantei-me da mesa com a sensação estranha de que, por hoje, tinha sobrevivido.
Não tinha resolvido merda nenhuma: tu continuavas longe, a humanidade continuava uma desgraça, e o miúdo de vinte anos continuava morto algures debaixo das contas por pagar.

Mas eu ainda escrevia.
Enquanto escrevo, ainda estou vivo.

Fui ao quarto.
Olhei para os miúdos a dormir.
Ali estava a única parte da vida que eu não conseguia transformar em poema porque é maior do que qualquer verso.

— Um filho nunca é nosso — pensei. — Mas eles são o mais perto que já estive de Deus.

Tapei-os melhor, respirei fundo.

A saudade de ti continuava cá, mordendo-me o peito.
Mas, pela primeira vez naquela noite, ela cabia dentro de uma frase.

E isso, para mim, já era uma pequena vitória. Uma daquelas vitórias silenciosas que ninguém vê, mas que salvam um homem de se afundar de vez.

Voltei para a cama.
O relógio marcava 5h17.

Talvez dormisse.
Talvez não.
Uma coisa é certa, amanhã de madrugada, se a saudade viesse outra vez, eu estava aqui.

Papel e caneta e este coração que vai sobrevivendo

quarta-feira, agosto 19, 2009

Agosto de 2009.

Paris.
E eu aqui, no meio da cidade que toda a gente romantiza, a tentar perceber se a minha vida avança ou só faz pose.

A casa pequena, paredes grandes, janela virada para as galerias lafayette onde ainda se ouviam passos, risos e garrafas a bater em sacos de plástico. A cama tem um lençois amarelos. Eu sou só mais um, mas a cabeça teima em achar que estou a viver uma espécie de capítulo especial.

Tenho o caderno na mesa. Sempre o caderno.
Já vem comigo desde casa, trago dentro dele metade da minha alma em rascunho.

Antes de vir, escrevi:

“É tarde e parto para outro lugar
As memórias vão comigo
Para não me esquecer quem sou
De onde vim…”

Na altura pareceu-me frase de filme.
Agora, sentado aqui num quarto parisiense com o cheiro a corredor antigo, pareceu-me só um tipo a tentar convencer-se de que fugir para outra cidade resolve alguma coisa.

A verdade é que eu queria tudo:
Queria conhecer Paris, queria conhecer o mundo, queria conhecer-me a mim, queria amar-te, queria ser escritor, queria ser tudo ao mesmo tempo.
Vinte e tal anos na cara, excesso de sonhos na cabeça e um coração que ainda acreditava que a vida, no fundo, no fundo, ia correr bem.

Foda-se

Saí de casa.

A cidade ainda não tinha adormecido.
Paris à noite parece uma daquelas pessoas bonitas que sabem que são bonitas e nem precisam de se arranjar muito. As ruas antigas, cheias de pedra, carregadas de uma história que eu não conhecia mas sentia nos pés.

Escrevi depois:

“As ruas antigas únicas
Carregadas de romantismo
Em cada esquina vêem-se beijos longos
Abraços e lágrimas…”

E é mesmo assim.
Cada esquina parece um postal ilustrado: casais encostados a paredes, a pontes, a árvores, beijos demorados, como se o mundo fosse acabar ali mesmo.
Foda-se, que cidade indecente para quem está cheio de amor e ao mesmo tempo sozinho.

Caminho sem mapa.
Gosto da sensação de me perder.
A verdade é que não me perdia de verdade – Paris está cheio de placas, de linhas de metro, de turistas, de luz. A minha verdadeira confusão não é geográfica, é cá dentro.

Aqui, nesta noite quente de agosto, eu sinto duas coisas ao mesmo tempo:

  1. Uma puta de uma alegria por estar aqui.

  2. Uma puta de uma saudade de ti.

É como se o meu peito tivesse sido alugado a dois inquilinos ao mesmo tempo: o miúdo encantado com a cidade e o homem que já tinha medo de te perder.

Lembro-me de olhar para o Sena e pensar que aquilo podia muito bem ser uma metáfora barata da minha vida: um rio que segue, que leva tudo, que não volta, mas que brilha à noite com reflexos bonitos para enganar quem olha de longe.

Encostei-me a uma ponte num destes dias 
Vi os barcos a passar, cheios de gente a tirar fotografias
Nas margens, grupos de amigos, garrafas de vinho, música, risos grandes.

E eu ali, a viver uma cena que qualquer guia turístico descrevia, mas por dentro a viver outra coisa qualquer.
Um descompasso.

“Aqui… respira-se cultura.
Respira-se amor, transpira a verdade escondida.
Aqui… é tudo tão parecido comigo.”

Escrevi isso depois, mas naquela noite já o sentia.
Paris parecia-me uma versão visível daquilo que eu tinha cá dentro:
um misto de velho e novo, de luz e sombra, de gente perdida e gente que achava que sabia para onde ia.

Passava e perpassava pelas avenidas, a absorver tudo:

– o cheiro do metro
– o fumo dos cigarros à porta dos cafés
– o som das línguas misturadas
– vendedores ambulantes a dizer “bonjour, my friend” em todas as direções

Um mundo de culturas livres, e eu sentia que, pela primeira vez em muito tempo, o mundo lá fora combinava com a confusão cá dentro.

Mas, claro, tu estragas-me sempre a festa.
Ou melhor: a falta de ti.

Porque, no meio de tanta luz, a tua ausência faz sombra 
Cada casal que via era um lembrete.
Cada riso partilhado um eco daquilo que eu queria viver contigo.

Pensei:
Se estivesses aqui, isto seria perfeito.
Nós dois a andar pelas ruas, a rir de coisas parvas, a inventar histórias sobre as pessoas que passavam, a beijar-nos nas pontes.

Mas não estás.

E então Paris é, ao mesmo tempo, a cidade onde eu me sentia em casa e a cidade onde tudo me lembrava que me faltava alguma coisa.

É lixado estar num lugar destes, lindo mas com um coração em guerra.

Regressei a casa tarde.
Tinha o corpo cansado, os pés a latejar, a cabeça cheia de imagens novas, o peito cheio de saudade velha.

Sentei-me na cama com o caderno.

Escrevi:

“Paris…
Je t’aime…”

E depois parei.
Porque senti que não era só à cidade que eu estava a dizer isso.
Era à vida.
Era a ti.
Era a tudo o que ainda podia acontecer.

Tinha medo.
Claro que tinha.

Medo de não ser capaz de fazer nada do que sonhava.
Medo de ser só mais um gajo que volta de Paris com meia dúzia de fotos e nenhuma mudança verdadeira.
Medo de te perder.
Medo de me perder.

Mas naquela madrugada, pela primeira vez em muito tempo, senti também qualquer coisa parecida com coragem.

Ali, longe de casa, longe das rotinas, longe dos sítios onde sempre fui o mesmo, percebi que talvez eu conseguisse ser outra coisa.
Não outra pessoa, eu não queria deixar de ser eu, mas uma versão minha menos encolhida.

Fechei os olhos e ouvi o som abafado da cidade a entrar pela janela entreaberta.
Pensei: “Talvez eu também seja feito disto: ruas antigas, beijos que não dou, luzes que ainda não acendi.”

Por instantes, a tristeza e a alegria fizeram um pacto de tréguas dentro de mim.
Não era paz, mas era um intervalo suportável.

Peguei na caneta e escrevi mais uma vez, como se fosse um compromisso:

“Passo e perpasso pelas avenidas
E não me canso.
Em vez disso danço.”

Na prática eu não danço porcaria nenhuma.
Ando, tropeço, penso demais.
Eu ainda acredito que podia dançar com a vida sem levar sempre um pontapé nos joelhos.

Fechei o caderno.
Deitei-me na cama estreita, com o som de Paris lá fora.

E antes de adormecer, pensei :

– Se um dia eu me esquecer quem sou, que estas páginas me devolvam.
– Se um dia tu leres isto, que saibas: eu já te amava aqui, no meio de uma cidade que não fazia ideia de quem eu era.

Depois, deixei a madrugada acabar sozinha.