segunda-feira, dezembro 22, 2025

Gosto do cheiro do papel. É uma coisa subtil, quase invisível, mas está lá. Tem dias que cheira a antigo, a tempo, a algo que não tem pressa. Escrever assim ainda me parece um ritual, não uma tarefa. Hoje em dia, com os computadores, tudo se tornou mais fácil, mais rápido, menos formal e também mais vulgar. As palavras saem limpas demais, direitas demais, como se não tivessem passado pelo corpo, como se não saissem cá de dentro.
Mas a caneta de aparo é outra história. As fountain pen. Essas não perdoam distrações. Obrigam-me a abrandar, a sentir o papel, a aceitar o erro. A tinta escorre, falha, mancha. Fica nos dedos... Isso importa. Quando acordo de manhã e ainda vejo aquelas marcas azuis ou pretas na pele, lembro-me que estive em algum lugar durante a noite. Não foi só insónia. Não foi só tempo perdido. Estive lá dentro, a mexer em coisas que não sei explicar.
A máquina de escrever é a mesma coisa. Um ritual diferente, mais barulhento. Ultimamente não tenho escrito nela, mas continua a ser um lugar quase romântico só meu. Não romântico de filmes, mas romântico no sentido de refúgio. Aquele barulho seco das teclas, o martelar constante, o sino no fim da linha. Não dá para escrever em silêncio, e talvez seja por isso que gosto. O barulho ocupa o espaço onde a cabeça costuma fazer demasiada conversa.
Na máquina não há correcções bonitas. Há erros riscados, papel amassado, folhas de lado. Há cansaço nos dedos e nas ideias. Mas há presença. Cada letra é um gesto físico. Cada frase pesa qualquer coisa.
No fundo, seja com a caneta de aparo ou com a máquina de escrever, o que eu procuro é o mesmo, um sítio onde escrever que ainda deixa marcas. No papel, nos dedos, em mim. Um sítio onde o que escrevo não desaparece com uma combinação de teclas no computador. Onde o barulho, a tinta e o cheiro me lembram que estive acordado, vivo, e que não deixei a noite passar em branco.