quinta-feira, março 05, 2026

 

Há noites em que escrevo sem saber bem para quem. Não penso em quem vem aqui ler, nem se partilhas. Escrevo porque a cabeça não se cala e porque há coisas que, se não saírem, ficam a fazer eco cá dentro.

Às vezes imagino que alguém chega aqui por acaso, abre estas palavras e fica a olhar para elas como quem olha para uma luz ao longe. Não uma luz que salva isso é fantasia bonita demais para a vida real mas algo que simplesmente está ali. Presente.

Talvez seja isso que todos procuramos nestas madrugadas: não respostas perfeitas, não frases sábias, mas um lugar onde alguém já passou pela mesma escuridão e deixou uma marca no caminho.

Se chegaste aqui agora, talvez não seja coincidência nenhuma. Talvez só precises, como eu às vezes preciso, de saber que há outra pessoa acordada no mundo a tentar perceber a mesma coisa.

Nada mais do que isso.

Dois desconhecidos
acordados na mesma madrugada
a ouvir o silêncio passar.

vens aqui ler
as palavras que mastiguei
a vida que levei
que levo
diz-me
quem és tu ? o que procuras aqui !? 
procuras talvez como eu
alguém que se compare a um farol
quando o mar está escuro
e o peito apertado
um voz que se faça ouvir
uma luz na madrugada 
não para salvar
isso é conversa de livros
mas que te ouça
é isso
apenas ouvir-te
às vezes não precisamos das repostas
só de alguém
que fique ali
aceso
enquanto a madrugada passa

terça-feira, março 03, 2026

por entre todas as coisas
que fiz e não fiz
as que mais tenho saudades
são as que não acabei
como um sonho
de que acordas cedo demais
com a boca ainda húmida
de outra vida
há nelas uma luz suspensa
um quase...
não são muitas
são suficientes
para me acordarem
às três da manhã
talvez se as tivesse terminado
teriam morrido
como morrem as cartas
quando finalmente são enviadas
os emails
os sms
assim ficaram abertas
como que se respirassem
como as janelas viradas para o mar
que nunca atravessei
mas eu volto a elas
com as mãos gastas
a mesma teimosia
a lembrança
há coisas
que só continuam belas
quando não se cumprem
e talvez
o que me dói
não seja não as ter acabado
mas saber que nelas
ainda estou lá inteiro