preso na ternura que trazes
amarrado ao brilho sereno do teu rosto
e observo a paz que nasce em mim
quando simplesmente sorris
e confesso...
profundo... quase eterno
de te abraçar e caminhar contigo
Há noites em que escrevo sem saber bem para quem. Não penso em quem vem aqui ler, nem se partilhas. Escrevo porque a cabeça não se cala e porque há coisas que, se não saírem, ficam a fazer eco cá dentro.
Às vezes imagino que alguém chega aqui por acaso, abre estas palavras e fica a olhar para elas como quem olha para uma luz ao longe. Não uma luz que salva isso é fantasia bonita demais para a vida real mas algo que simplesmente está ali. Presente.
Talvez seja isso que todos procuramos nestas madrugadas: não respostas perfeitas, não frases sábias, mas um lugar onde alguém já passou pela mesma escuridão e deixou uma marca no caminho.
Se chegaste aqui agora, talvez não seja coincidência nenhuma. Talvez só precises, como eu às vezes preciso, de saber que há outra pessoa acordada no mundo a tentar perceber a mesma coisa.
Nada mais do que isso.
Dois desconhecidos
acordados na mesma madrugada
a ouvir o silêncio passar.
vens aqui ler
as palavras que mastiguei
a vida que levei
que levo
diz-me
quem és tu ? o que procuras aqui !?
procuras talvez como eu
alguém que se compare a um farol
quando o mar está escuro
e o peito apertado
um voz que se faça ouvir
uma luz na madrugada
não para salvar
isso é conversa de livros
mas que te ouça
é isso
apenas ouvir-te
às vezes não precisamos das repostas
só de alguém
que fique ali
aceso
enquanto a madrugada passa
por entre todas as coisas
que fiz e não fiz
as que mais tenho saudades
são as que não acabei
como um sonho
de que acordas cedo demais
com a boca ainda húmida
de outra vida
há nelas uma luz suspensa
um quase...
não são muitas
são suficientes
para me acordarem
às três da manhã
talvez se as tivesse terminado
teriam morrido
como morrem as cartas
quando finalmente são enviadas
os emails
os sms
assim ficaram abertas
como que se respirassem
como as janelas viradas para o mar
que nunca atravessei
mas eu volto a elas
com as mãos gastas
a mesma teimosia
a lembrança
há coisas
que só continuam belas
quando não se cumprem
e talvez
o que me dói
não seja não as ter acabado
mas saber que nelas
ainda estou lá inteiro
nunca deixei
de a olhar
sinceramente ela não prometia nada
nem salvação
nem futuro
só estava lá
eu, cá em baixo
uma caneta na mão
ou uma máquina de escrever
o computador
o corpo gasto
depois o papel
mas as mãos
a cheirar aos mesmos dias usados
e a noite a cair devagar
a lua nunca me pediu
nem julgou
não explica
ah... mas as pessoas sim
mesmo sabendo
que nunca vou pisar a lua
mesmo assim
ela ficou ali
não como um destino
mas a eterna confidente
nunca me pediu nada
não tentou salvar-me
não fez perguntas
limitou-se a ouvir
as noites mal dormidas
as frases tortas
os dias gastos
eu sempre falei pouco
ela também
e isso bastava para nós
ainda não era a tarde certa
apesar do sol entrar pelas jantelas
as sombras reproduziam-se
num chão de madeira cansado
quando olhava
ofuscava-me
a luz batia-me na cara
como quem diz
vive
isto é o que sobrou
fechei os olhos
não para dormir
mas para sentir
aqueles dias no dojo
em que a luz
era a melhor forma
de verdade
e ali
a verdade
não precisava de palavras
jornais velhos e antigos
papeis amarelados
mortos com vidas passadas
criticismo
uma pilha de jornais
copos vazios e pontas de cigarro no chão
ouve-se ao longe um miúdo que grita pela mãe
ela responde
o beco cheira a mijo
uma velha vem à janela com medo
um medo de uma morte lenta
não há nada aqui para ninguém
tenho saudades dos velhos telefones
aqueles que levantava o auscultador
e o mundo ficava suspenso
tinha de rodar a roda no centro
para marcar um numero de cada vez
como quem ainda pensava
ás vezes a meio do numero, já não queria falar com ninguém
desligava
percebia-se a verdade
era simples mas não era estúpido
agora essas coisas
tornaram-se simples demais
banais demais
as coisas perderam peso
as palavras também
e com essas banalidades vieram as redes sociais
outra merda sem jeito em que as pessoas
gritam palavras vazias
para outro grupo de pessoas ainda mais vazio
uma latrina iluminada
ninguém escuta
ninguém sente
todos falam
mas esses telefones
parecia que ouvia o silêncio a julgar-te
era um compromisso ligar a alguém
não havia dedos nervosos
nem likes
nem essa masturbação digital
agora tudo é fácil demais
as pessoas falam sem pensar
amam sem sentir
fodem sem se tocar
a verdade é que ninguém quer silêncio
ninguém aguenta estar sozinho
todos berram
para não ouvir o vazio que trazem lá dentro
chamam a isso progresso
eu chamo-lhe suicidio lento
se bebesse
era impossivel ser eu
um copo de vinho
mais um copo de vinho
não sei quanto tempo iria durar
mas vejo-me a bater palavras na máquina de escrever
cigarro após folha
folha após cigarro
cerveja ou vinho
uma moda da altura
revejo-me em sombras
talvez uma vida antiga
sempre um copo a meio
uma frase a meio
uma desculpa a meio
mas se bebesse
talvez fosse mais fácil
mentir-me
fico sóbrio
a assistir
à lenta decomposição
do que chamam a vida normal
Em 1995
Lisboa cheirava a gasóleo
Cigarros baratos
E a qualquer coisa podre que vinha do tejo
Quando a maré estava baixa
Eu era um puto
Com ténis cansados
E sonhos grandes demais para o bolso das calças
Andava de comboio com bilhete
A fingir que não via o pica
Como se isso já fosse um treino para a vida adulta
O Rossio era um sítio sério
Cheio de homens cansados
Mulheres com sacos de plástico
E putas discretas
Que sabiam mais sobre o mundo
Do que todos os professores juntos
Os velhos ainda jogavam à sueca
Com copos de bagaço
E histórias da tropa
Poucos falavam de sentimentos
Isso era coisa de ricos
Ou de malucos
Eu aprendia tudo
Como se aprende a levar murros
Devagar
À custa de erros
E com vergonha incluída
Havia lojas de música na rua
Cassettes piratas
Guns N’ Roses
Nirvana
Metallica
Xutos
Tudo misturado
Como se o mundo estivesse a ensaiar
Qual seria o próximo desastre
As raparigas fumavam às escondidas
E falavam de fugir
Eu queria conhece-las, beijá-las
Mas era mais timido
Mal sabia falar
Por isso escrevia merdas num caderno
Como quem confessa pequenos crimes
A minha mãe
Era o chão firme
A única voz estável
Num mundo que abanava
Apoiava-me em silêncio
Como quem sabe que amar um filho
Às vezes é só não o deixar cair
O meu pai quando o via
Bebia demais
Não foi um vilão
Foi só ausente
Que é outra forma de ferida
Mais difícil de explicar
Aprendi cedo
Que as famílias
Também se partem
E que ninguém te ensina como lidar com essa merda
Acho que os amigos e a rua trataram do resto
Os adultos fingiam saber o que faziam
E eu percebia que ninguém sabe porra nenhuma
Só finge melhor com a idade
Acho que foi por isso que fui para o karate uns anos antes
Não para ser duro
Mas para não ser fraco
Num mundo que não perdoava ninguém
Naquele tempo o dojo cheirava a suor
A respeito
E a regras simples
Ali se caías
Levantavas-te
Não havia conversa
Aprendi a conter a raiva
A respirar antes do golpe
A perceber
Que perder o controlo é sempre derrota
Depois vinha Lisboa outra vez
O comboio
Feira da Ladra
Raparigas a fumar
Com olhos de fuga
E música pirata
A tentar dar sentido às horas
Em 1995
Lisboa não prometia futuro
Prometia resistência
Aprendi cedo
que sobreviver
já era uma forma de vitória
Poucos falavam de yoga ou meditação em 95
Muito menos para putos
Mas eu precisava
De um lugar
Onde o corpo baixasse a guarda
E a cabeça
Não tivesse de fingir
No karaté
Aprendi a enfrentar
Na meditação
Aprendi a ficar
Uma ensinou-me a sobreviver à rua
A outra a sobreviver a mim
Cresci assim
Hoje
Quando volto às mesmas ruas
O puto ainda anda comigo
Menos tenso
Mais consciente
Aprendi que a força sem consciência
É só herança mal resolvida
E que sobreviver em Lisboa não era ser duro
era saber quando fechar os punhos
e quando os abrir.
Acordei a pensar em 1995, o que é sempre um mau sinal. Dizem que quando a cabeça vai buscar anos específicos é porque alguma coisa antiga voltou a doer. Fiquei deitado uns minutos a olhar para o teto, levantei-me, deitei-me novamente a tentar perceber como é que um puto do Cacém aprendeu tão cedo a fechar os punhos e a respirar ao mesmo tempo.
Lembro-me do karate não como vitória, mas como contenção. Não era para bater em ninguém, era só para não rebentar por dentro. A meditação veio depois, quase em segredo, como quem descobre um esconderijo dentro do próprio corpo. Ninguém falava disso, mas eu precisava de um sítio onde a raiva baixasse de volume.
A minha mãe aguentava o barco como podia. Às vezes é só isso que precisamos, que o barco continue a não se afundar. Ainda acordo de vez em quando a pensar nisto, sobretudo quando a casa está em silêncio e os miúdos dormem.
Percebo agora que muita coisa do que sou nasceu ali na rua, no dojo, no meu quarto a respirar devagar. Não virei santo, nem exemplo de nada. Virei só um homem, pai.
Escrever isto não muda 1995. Ajuda-me a ter sono e talvez a não repetir o que veio de lá. Para esta madrugada, já chega.
Gosto do cheiro do papel. É uma coisa subtil, quase invisível, mas está lá. Tem dias que cheira a antigo, a tempo, a algo que não tem pressa. Escrever assim ainda me parece um ritual, não uma tarefa. Hoje em dia, com os computadores, tudo se tornou mais fácil, mais rápido, menos formal e também mais vulgar. As palavras saem limpas demais, direitas demais, como se não tivessem passado pelo corpo, como se não saissem cá de dentro.
Mas a caneta de aparo é outra história. As fountain pen. Essas não perdoam distrações. Obrigam-me a abrandar, a sentir o papel, a aceitar o erro. A tinta escorre, falha, mancha. Fica nos dedos... Isso importa. Quando acordo de manhã e ainda vejo aquelas marcas azuis ou pretas na pele, lembro-me que estive em algum lugar durante a noite. Não foi só insónia. Não foi só tempo perdido. Estive lá dentro, a mexer em coisas que não sei explicar.
A máquina de escrever é a mesma coisa. Um ritual diferente, mais barulhento. Ultimamente não tenho escrito nela, mas continua a ser um lugar quase romântico só meu. Não romântico de filmes, mas romântico no sentido de refúgio. Aquele barulho seco das teclas, o martelar constante, o sino no fim da linha. Não dá para escrever em silêncio, e talvez seja por isso que gosto. O barulho ocupa o espaço onde a cabeça costuma fazer demasiada conversa.
Na máquina não há correcções bonitas. Há erros riscados, papel amassado, folhas de lado. Há cansaço nos dedos e nas ideias. Mas há presença. Cada letra é um gesto físico. Cada frase pesa qualquer coisa.
No fundo, seja com a caneta de aparo ou com a máquina de escrever, o que eu procuro é o mesmo, um sítio onde escrever que ainda deixa marcas. No papel, nos dedos, em mim. Um sítio onde o que escrevo não desaparece com uma combinação de teclas no computador. Onde o barulho, a tinta e o cheiro me lembram que estive acordado, vivo, e que não deixei a noite passar em branco.
Há muitos, muitos anos, talvez até tantos quanto poderemos pensar, houve um fantasma, era um homem que pela sua morte se tornou numa alma penada, não é que tivesse penas de pato, ganso ou até de avestruz. Não, nada disso, mas de facto não era um qualquer fantasma, nem sequer era assustador ou assustava alguém como é suposto os fantasmas fazerem, pelo menos os que eu conheço.
Certo dia, depois de fazer todas as coisas que os fantasmas fazem pela manhã, ele deambulava por onde passeava todos os dias, à mesma hora e para seu espanto reparou que o seu relógio estava parado. Algo que ele nunca tinha dado conta porque raramente se dava conta do tempo. A coisa preocupou-o tanto que naquele momento ele parou, ali mesmo no meio da rua e ficou a olhar atentamente para o ponteiro que não se movia, que parecia estar morto como ele. Pensou para si mesmo “Mas que raio! Querem ver que o meu relógio morreu também?” e começou a correr preocupado a tentar encontrar um relojoeiro. De facto ali perto, havia há muitos anos uma relojoaria, uma loja onde fabricavam e arranjavam os mais complexos relógios. Sem saber as horas só pensava no seu relógio parado, andou e andou até que encontrou finalmente uma loja com uma grande porta de madeira onde se podia ler em letras bem grandes “O tempo não para, e os relógios também não devem parar.”. – Que ironia – Pensou. Assim que chegou ficou parado à porta, o seu inexistente coração batia como um relógio apressado, infelizmente não conseguiu entrar na loja, um pequeno cartaz anunciava que fechara para férias. Cabisbaixo, o fantasma olhava para o seu relógio fixamente e pensava se alguma vez mais iria ver os seus ponteiros a andar novamente. Quando se deu conta, era de noite e apercebeu-se uma vez mais que o seu relógio tinha as mesmas horas, as horas em que tinha parado, precisamente seis e trinta e quatro. Já nem ele sabia que horas eram, perdera a noção do tempo, mesmo em vida as horas para ele pareciam nunca passar, mas, naquela noite, era uma noite diferente, o seu relógio tinha parado e com ele o tempo, como que petrificado, isolado de qualquer atividade numerológica. Aquele fantasma sentia-se verdadeiramente deprimido.
Sentou-se num banco de jardim ali perto e decidiu esperar que a grande porta de madeira se abrisse. Passou um dia, dois dias, três dias, uma semana, duas semanas e nada. - Mas que raio! Quem será que tira tantos dias de férias? – Pensou indignado. Ao pensar isto, reparou num pequeno homem que caminhava em direção à porta e pensou: “Finalmente alguém para me abrir a porta e arranjar o meu relógio.” Levantou-se e saiu a correr, entrou, falou, esperou e falou novamente, mas ninguém o ouvia, nem sequer o viam, a não ser um pequeno e stressado cão que ali estava sentado a abanar o seu rabo preto, o cão via-o, dizem que os cães veem os fantasmas, não sei, é o que dizem. O pequeno homem atrás do balcão disse em voz baixa: “Estou a ver aqui um relógio que não trabalha.”. Rapidamente um sorriso surgiu na cara do fantasma. Pensou logo que era ele e o seu relógio, e num ápice tirou o relógio do pulso e poisou-o em cima do balcão. O relojoeiro nem sequer olhou para o relógio, para ele não havia nada no balcão a não ser uma velha caixa registadora e uma pequena caixa de velhos botões. O fantasma triste disse: - Mas que raio! Se ao menos alguém me ouvisse! - Mas ninguém o ouviu, exceto o cão que o olhava com olhos de tédio e já não abanava o rabo preto. Voltou a pegar no relógio e colocou-o no pulso, no momento em que se preparava para apertar a bracelete reparou em algo que nunca tinha reparado antes, um pequeno botão redondo situado no lado oposto ao número três, um pequeno mecanismo escondido. Curioso o fantasma decidiu rodar aquele pequeno botão redondo para trás, mais precisamente duas pequenas voltas. Naquele preciso instante, o fantasma e o seu relógio regressaram ao banco de jardim, precisamente em frente à loja do relojoeiro e precisamente onde ele tinha estado dias antes. Confuso, voltou a rodar o botão duas voltas para a frente, para seu espanto deu consigo instantaneamente dentro da loja do relojeiro novamente no dia presente. – Que raio de magia é esta? – Pensou ainda mais confuso. Decidiu então dar voltas e voltas para trás no botão redondo e deu consigo no banco de jardim, no primeiro dia em que se tinha sentado à espera que a relojoaria abrisse. Ele não queria acreditar no que estava a acontecer e voltou a rodar, a rodar e a rodar para trás aquela pequena roda mágica, rodou-a tantas vezes quantos os dias o seu relógio tinha parado. Mais precisamente no início do dia, reparou que quando acordou não tinha dado corda ao seu relógio e assustou-se como se fosse um fantasma pela primeira vez. Como se ele nunca se tivesse assustado. De seguida lembrou-se que era um fantasma, quis rodar a roda do seu relógio para momentos antes da sua morte, mas, simplesmente não conseguia, a pequena roda ficava presa, como que bloqueada, parecia não querer voltar tanto tempo atrás no tempo, talvez porque o corpo do fantasma não estava mais lá, estava ausente. Ele compreendeu então que o grande desconhecido era o seu estado atual e ficou triste, triste como nunca um fantasma até então teria ficado, pensava em coisas que nunca tinha pensado e deu conta de que não iria mais sentir o abraço apertado de alguém. Profundamente triste voltou a rodar a roda do seu relógio para a frente, rodou e rodou e rodou, precisamente até ao dia em que pousara o relógio no balcão do relojoeiro. Saiu da loja e reparou que havia uma paragem de autocarro com uma enorme tabuleta que dizia “Destino: Nova vida”. Sentou-se e aguardou.
Vi-te hoje
Numa festa de aniversário de alguém
Não foi a primeira vez que te vi
Não...
Os meus olhos já te procuraram
Mas talvez me quisesse perder sem te conhecer
Vejo-te sempre tão apressada
Não sei o teu nome
Mas conheço o teu sorriso
Sorriste naquele dia no portão da escola
E passei o dia a lembrar-me de ti
Mesmo não te conhecendo
Essa tua expressão de mulher entranhou-se em mim
Como uma tatuagem que não me largou
feita sem tinta
sem agulha
sem consentimento
mas que agora não me larga
Acordo no escuro sem saber bem porquê. Não há barulho nenhum, nenhum sonho estranho que eu me lembre, nada. Só esta sensação de estar a cair e ser interrompido. Estiquei a mão à procura do telemóvel na mesa de cabeceira, carrego no botão. 3h23. Foda-se! Claro. Nunca são quatro da tarde, é sempre esta merda de hora.
Fico deitado uns segundos a olhar para o ecrã, como se ele tivesse alguma resposta. Não tem. Duas notificações sem sentido, um e-mail qualquer, uma app a dizer que devia ter meditado. Desligo. O quarto volta a ficar negro. Fecho os olhos outra vez, mudo de posição, virar para o outro lado. O corpo já acordou, a cabeça também. Se ficar aqui, vou só enrolar-me nos lençóis a pensar nas mesmas merdas de sempre.
Sento-me na cama. As costas protestam, faz 6 anos que não meto os pés no dojo as pernas doem-me, a necessidade extrema de treinar, o colchão conhece demasiado bem o molde do meu corpo. A casa está completamente calada. Não é só o silêncio da noite, é o silêncio deste ano, menos carros, menos gente, menos tudo. Agora toda a gente dorme em casa, ou finge. Os miúdos hoje não estão aqui, estão com a mãe. A ausência deles aumenta o eco, expande a tristeza.
Levanto-me devagar, caminho no escuro como quem já fez este percurso demasiadas vezes. Chego à cozinha, acendo a luz fraca do exaustor. A luz amarela desenha sombras feias na parede, realça a loiça que ficou a secar, o pano molhado esquecido na mesa, um íman no frigorífico com a foto deles.
Abro a torneira, encho um copo de água mas lembro-me logo que esta água do Montijo é uma merda, tem mais calcário que o deus me livre, encosto-me ao balcão enquanto bebo. A água está fria, escorrega pela garganta, não resolve nada. Penso que o mundo anda em pânico com medo de morrer e eu, às três da manhã, tenho mais medo de continuar exatamente assim durante anos. Pouso o copo, passo a mão pela cara, suspiro fundo, como se isso ajudasse a empurrar o ar para dentro.
Vou para a sala. Acendo outra luz fraca. A sala à noite parece ainda maior, como se o silêncio afastasse os móveis uns dos outros. A mesa, o portátil fechado, o carregador enrolado, o caderno, uma caneta, um copo vazio do café da tarde. Trabalho aqui desde que começou esta palhaçada da pandemia. O que antes era sala agora é escritório, refeitório e consultório de crise existencial, tudo aqui na minha casa, a unica coisa que me mantém alegre é ver brinquedos espalhados por todo o lado, sinónimo de que os putos brincam, amo-os.
Sento-me no sofá. Fico uns segundos sem fazer nada, só a ouvir o prédio respirar: um cano, um passo lá em cima, um carro ao longe. Depois agarro o caderno para mim e abro-o. As páginas estão cheias de outras noites como esta. Poemas, frases, desabafos, tudo misturado. Vejo letras do início deste ano. É como folhear o meu historico clínico.
Pego na caneta. Não penso muito, começo a escrever porque sei que se não escrever fico só aqui sentado a aumentar a pressão no peito. Escrevo que acordo outra vez a meio da noite, que olho para o telemóvel, que vejo as notícias, que o mundo está à rasca com um vírus e eu continuo à rasca com a minha cabeça. Escrevo que toda a gente diz “vai passar” e que eu já ouvi essa merda antes, em outros contextos, e sei que às vezes passa mas não melhora – só se transforma noutra merda qualquer.
Penso no trabalho. Puta que os pariu, passo os dias a aturar incompetentes preso a videochamadas, tickets, programação de merda, mensagens, “podes ver isto com urgência?”, “é importante”, “é crítico”. Trabalho mais horas em casa do que antes, porque o computador está sempre ali, a meio metro de mim. Se respondo, sou competente. Se não respondo, sinto-me culpado pela incompetencia deles. Não há fronteira nenhuma entre “estar em casa” e “estar a trabalhar”. É tudo o mesmo sítio, a mesma cadeira, o mesmo cansaço.
Penso nos miúdos. Quando eles estão aqui, há barulho, desenhos, perguntas, discussões sobre filmes, gargalhadas, birras, pratos sujos, vida, vida é isso que existe quando eles estão aqui. Faço o pequeno-almoço, digo para lavarem as mãos dez vezes, tento ser pai e mãe porque a mãe não quer saber, tento não falhar demasiado. Quando não estão, como hoje, a casa parece um cenário depois de alguém desmontar a festa. As coisas estão arrumadas demais, o silêncio sobra.
E, como se não bastasse também apareces tu. Não preciso de fazer esforço. Basta estar acordado a esta hora que a tua memória vem sozinha. Já não é o choque dos anos anteriores, mas também não é distância. É uma presença difusa, uma sombra que se senta ao meu lado como se tivesse lugar marcado, já não te vejo há anos, mas quando envias mensagem a dizer que tens saudades... foda-se cai-me tudo. Vejo flashes rápidos, uma conversa, um café, o teu sorriso, um toque, um dia qualquer em que eu ainda acreditava que podiamos ter uma vida.
Fecho os olhos por um instante, deixo isso passar pelo corpo, abro de novo e escrevo mais uma linha qualquer sobre saudade, sobre algo que já acabou mas continua a morar aqui. Não preciso de ser bonito, só preciso de ser honesto. É isso que tento fazer não mentir no papel, pelo menos.
Pego no telemóvel, por impulso abro as notícias. Vejo números de infetados, de mortos, gráficos, especialistas em tudo, gente a gritar em caixas de comentários. Fico cansado ao fim de trinta segundos. Fecho. Abro o bloco de notas, leio uma frase qualquer que escrevi há meses, sobre o ar ficar irrespirável, sobre palavras acumuladas no peito, sobre não caber bem neste mundo. Dou um sorriso curto. Sou consistente na desgraça, pelo menos.
Pouso o telemóvel na mesa, com o ecrã virado para baixo. Não quero ver mais nada.
Volto ao caderno. Escrevo que o mundo está com medo de morrer e eu tenho medo de continuar assim, que o tempo todo em casa está a dar demasiada oportunidade para ouvir a minha própria cabeça, que há dias em que tudo parece suportável e outros em que respirar parece trabalho a mais. Escrevo que sinto falta deles a correr pela casa, a chamar “papá” por tudo e por nada, e que isso, por mais cansativo que seja, ainda é a única coisa que me amarra à realidade de forma decente.
Fico alguns minutos calado depois de pousar a caneta. Sinto o corpo mais cansado do que quando me levantei da cama. Não há epifania, não há paz, não há luz divina. Há só uma pequena sensação de que aquilo que estava a rodar cá dentro já não está totalmente preso. Está em cima do papel, o que é ligeiramente menos sufocante.
Fecho o caderno e levanto-me, apago a luz da sala, volto para o quarto. Deito-me outra vez, no mesmo lado da cama de sempre. O colchão volta a encaixar o meu peso. Olho para o teto que não vejo, porque está escuro, mas sei exatamente como é. Penso que amanhã vou acordar, trabalhar, responder a e-mails, talvez ir ao supermercado, buscar os miúdos, ouvir mais notícias sobre números e curvas e merdas que eu não controlo.
Existem diversas casas em Oiã, tantas que nem eu sei dizer: brancas, amarelas, verdes, vermelhas e de muitas outras cores. Copiam-se umas às outras e perdem-se de vista. Nenhuma, porém, é tão misteriosa como a casa mais antiga da vila.
Na verdade, trata-se de um pequeno palácio esquecido no tempo, abandonado e quase sem vida — quase, porque ainda se ouvem pássaros e se veem lindos gatos ronronantes a brincar nos jardins em volta. Mesmo assim, diz-se que um velho conde terá lá vivido há centenas de anos e que a casa se tornou assombrada. Contam-se histórias de uma misteriosa mulher, ou até de uma família inteira, que ali teria vivido.
Pouco se sabe sobre aquele palacete e a sua história; o que se soube perdeu-se no tempo. Havia algo que habitava a casa — e não eram só aranhas, baratas, ratos ou gatos cinzentos. Um fantasma vivia tranquilamente dentro daquelas paredes. Não se ouvia. Não era um fantasma qualquer, nem tinha um ar assustador como poderíamos pensar. Na realidade, nem se via: era uma espécie de homem invisível, ou lá como se chamam as coisas que a gente não vê. Também não era conde; de conde nada tinha. Mas era um fantasma, fazia as coisas que os fantasmas fazem e, curiosamente, tinha medo de fantasmas.
Todos os dias, pela manhã, depois de várias meias-horas a passear pelo jardim labiríntico, dirigia-se à biblioteca que ficava por baixo da casa, acessível apenas através de um mecanismo secreto no salão de música. Perto da janela havia um gancho junto a uma estrutura de ferro onde se prendia o cortinado. Três voltas à esquerda, duas à direita e uma ligeira pressão para dentro — e, automaticamente, no lado oposto, junto ao chão, abria-se uma escada em caracol.
Foram poucos os proprietários que conheceram a sua existência, ao contrário desse ser invisível que já dominava a engenhoca desde o início da construção. A escada de madeira dava acesso a uma antiga biblioteca, tão antiga quanto ele, tão antiga quanto as paredes altas que guardavam os livros em estantes de carvalho escurecido, onde o cheiro do papel se confundia com o da madeira. O teto erguia dez cúpulas, minuciosamente decoradas com afrescos; junto às estantes, longos escadotes de madeira. Os livros preenchiam as paredes — pequenos, grandes, milhares — cuidadosamente catalogados e numerados.
Havia livros de todos os tipos e tamanhos: grandes livros de culinária com capas duras e títulos em letras largas; enciclopédias de saúde em vários volumes, com capas de couro e letras douradas; aventuras e romances; poesia em grossas capas vermelhas, azuis e pretas; crimes inventados, anedotas e adivinhas; livros para crianças e publicações de várias épocas.
No centro da biblioteca, um enorme cadeirão de veludo verde marcava território. Ao lado, uma pequena mesa de madeira ornamentada lembrava a Floresta Negra. Se as manhãs eram passadas no jardim, o resto do dia era ali, na companhia de milhões de páginas. Lia e relia. Eram a sua companhia; juntos faziam uma ótima sociedade. Ler trazia-o de volta à vida. Lia um parágrafo, cerrava os olhos e visualizava: as pessoas viam-no e falavam-lhe; ele podia tocar os objetos e sentir; podia voltar a sentir todos os sentimentos.
Toda a sua existência ganhava sentido — como se renascesse das palavras e vivesse aquelas experiências vezes sem conta, as vezes que quisesse. Fascinou-se por Júlio Verne; e havia outros que, como ele, não lhe limitavam a imaginação.
Durante centenas de anos, ele leu e releu cada parágrafo, cada página. Mas, naquele dia, depois de observar os pássaros que voavam sobre os ratos que fugiam dos gatos, rodou o engenho: três voltas à esquerda, duas à direita, leve pressão — e desceu a escadaria. Num ápice, tocava as lombadas como se as pudesse ler num só instante, letra a letra, palavra a palavra. Subiu um escadote, e outro, e mais outro até à última estante do último andar, lá em cima, perto do teto.
Reparou que, ao lado do livro número novecentos e trinta e quatro, estava um volume sem numeração. Um livro desconhecido. Não compreendia por que não estava numerado. Aproximou-se e leu o título: Vida. Pensou: “Ora esta! Por que estava um pouco mais atrás? E por que nunca o teria lido nem sequer notado que aqui estava?”. Passou a mão pela lombada e retirou-o devagar, como se manobrasse algo frágil.
O livro tinha capa fina e muito macia — um veludo delicado de cor suave. Exalava um cheiro diferente de todos os outros: doce perfume a jasmim misturado com um leve odor a caramelo. Olhou para o livro — e o livro olhou-o de volta, como se o chamasse. Pela primeira vez, não sabia se escolhera o livro ou se o livro o escolhera a ele.
Não o abriu. Apenas o observou, curioso como uma criança. Tirou-lhe as medidas com os olhos, aspirou-lhe o cheiro, deixou que os dedos viajassem pelo título áspero cravado na capa. Que estariam ali escrito? Que viagem era esta que ainda não fizera? Desceu ao solo e foi até ao cadeirão. Sentou-se. Pousou o livro na pequena mesa.
Noutras circunstâncias estaria impaciente; agora, não. Apenas curioso: como pudera um livro escapar-lhe? Há quanto tempo estaria ali? Quem o teria trazido? Questões talvez sem resposta — e que talvez nem precisassem de resposta.
Pegou no livro, contemplou uma vez mais a textura suave e o título Vida, que brilhava diante dos seus olhos. Abriu a primeira página — e nada. Vazio. Folheou a segunda, a terceira e todas as que se seguiram — nada: nem uma única letra, nem uma palavra. Confuso, fechou o livro. Teve a sensação de que a capa o fitava. Pousou-o na mesa. No momento em que se levantava, o livro abriu-se sozinho: letras brotavam na primeira página como tinta numa tela mágica.
“Mas que magia é esta?”, pensou. Lera livros de magia, feitiços e outros; nunca um livro lhe quebrara a barreira do mundo físico. Depois de algum tempo, as letras tornaram-se nítidas e podia ler-se:
De dentro para fora
De fora para dentro
De dentro tudo trarás
De fora nada levarás
Ainda mais intrigado, aproximou-se. As palavras formavam-se letra a letra e, depois de lidas no pensamento, desapareciam sem deixar rasto — linha após linha, parágrafo após parágrafo. Isso não o impediu de continuar. Leu as páginas seguintes até começar a sentir o peso do seu corpo. As pernas, antes leves e sem forma, eram agora pernas de menino; os braços, de carne e osso; as mãos pequenas prendiam-se às da mãe e do pai.
Ouvia o riso das crianças e misturava-se com elas. Brincava; a sua voz ecoava como as vozes dos outros meninos. Era o rapaz que ficara perdido no tempo. Brincou e brincou com os amigos; construiu cavalos de batalha em palha, espadas de madeira, casas nas árvores — todas as brincadeiras do seu tempo.
Chegou a uma página em que o corpo mudou: jovem adulto, lutava para não sentir o calor intenso do fogo que lhe lembrava a perda do pai e da mãe. Chorou. Chorou tanto que parou de ler; soluçava; as lágrimas corriam-lhe pela face. No meio da multidão, tentava salvar vidas. Um adulto a quem fora revelada a dor da perda — e, de dentro para fora, era a única coisa que podia ser.
Parágrafo após parágrafo, voltou a sentir a alegria de viver: nasceu-lhe um filho; depois, uma filha; e outro filho; e mais outro. Era feliz. A sua companheira era a mulher que amava. De fora para dentro, nada o preenchia; eram o amor e a fraternidade da família que lhe davam conforto.
A pele macia ganhou rugas. Envelhecia e lia — como se a vida ecoasse naquelas páginas e, agora, o mundo fizesse sentido. Os netos corriam pela casa, desarrumavam-lhe os livros, arrancavam flores do jardim e puxavam o rabo aos gatos; mas também lhe tocavam as mãos e ele podia sentir, brincar e rir com eles. E lembrou-se, uma vez mais, de que a sua vida era feliz.
Muito velho, sentiu-se deitado numa cama, rodeado pelos filhos e netos. Compreendeu: de fora nada levaria para o grande desconhecido; levaria, sim, a beleza interior que experienciara em vida. Prestes a terminar a última palavra da última página, fechou os olhos. O corpo estremeceu uma última vez. Pousou o livro mágico na velha mesa, levantou-se — e dissolveu-se nos últimos raios de luz da tarde.
Naquele verão ela não veio, nem naquele nem nos outros que se seguiram. Passaram invernos e todas as estações do tempo, tantas que quase caíram em esquecimento. Terá sido um dia após o outro, uma semana após outra ou talvez ano após ano, até que as canções passaram de moda, como que, paradas num tempo que já não existia, mas as músicas deles não tinham parado, pelo menos para eles. Por vezes ele recordava no mesmo café de sempre, escutando com o ouvido da memória a canção Woman de John Lennon, outras subia-lhe o ritmo dos Rolling Stones, preenchiam-no por momentos com Wild Horses. Foi assim durante trinta e cinco anos. – Que fazes aqui? – Pergunta o velho sem medo. – Vim ver-te. – Responde ela. – Foda-se! Agora?! – Não me fales assim, nunca é tarde para reparar os nossos erros. Com os olhos postos no chão o velho diz: – Erros? Já não sei do que falas. Estás velha! Mas bonita. – Tu também, ainda tens os mesmos olhos. Vezes sem conta o velho ensaiava o discurso, falava sozinho como se ela ali estivesse para o ouvir. Sentava-se à janela e observava o tempo passar, imaginava as mãos dela nas suas e lembrava o toque que o deixava calmo. Passaram os Beatles, os The Doors e os Xutos, como se fossem composições numa estação de rádio ou a banda sonora da sua vida. Trim trim três da manhã, o telefone acorda o velho, meio sonâmbulo, atende com uma voz amarfanhada: - Estou? - João? És tu? - Sim! Quem fala? - Sou eu, a Maria. Não sabia se havia de rir ou chorar, nunca fizera tanto sentido a nota musical que marcara a presença do silêncio nos livros de música, silêncio, um velho e companheiro demasiado presente. - João estás aí? – Repetiu ela - Sim estou, é muito tarde. – A voz arrastada não lhe permitia falar. - Preciso de ti, o meu marido morreu há dois meses, sinto-me triste João, preciso de ti. – Disse ela como uma criança dentro de uma mulher. Ele desligou o telefone, pousou-o devagar na cabeceira, como se quisesse prolongar ainda mais a agonia de um ato de coragem. Adormecera como se não quisesse acordar. Tornara-se vulgar o cheiro a velho, ao fim de algum tempo até os espelhos deixaram de refletir as imagens dos dias que passam, talvez por causa disso já não se via ao espelho tantas vezes como os jovens imaturos. E as sopas, sempre as mesmas, deslavadas, o arroz, sempre o mesmo e também as mesmas batatas nos mesmos pratos brancos amarelados, assim como os mesmos sapatos e as camisas brancas ou azuis. Naquele dia todas as camisas pareciam diferentes e os sapatos quase novos e engraxados, até o café tinha um cheiro diferente, toda a solidão era um só pensamento alastrado durante dias e anos, impresso nas mãos dum corpo enrugado. A manhã era diferente, sobretudo cinzenta mas como se o sol brilhasse saiu à rua e a voz dela acompanhou-o, ouvia-a num murmúrio suave, confiscado entre o sonho e o sono. Fez o mesmo trajeto, passava à porta da oficina do António, o cheiro a gasolina e óleo fundia-se com o cheiro a pão da pastelaria ao lado. Ouvia Time is on my side dos Rolling Stones no seu leitor de mp3 que o neto lhe ofereceu num dos últimos aniversários, que ironia, ao mesmo tempo a voz dela no interior da sua cabeça, não sabia se estava contente por o marido ter batido as botas ou por valentia lhe ter desligado o telefone na cara, quebrando assim anos de solidão intensa. O velho estava diferente, parecia uma outra vida, apanhara o autocarro e queria almoçar peixe assado em Lisboa, sentar-se num restaurante qualquer, beber um copo de vinho e andar, andar por aí como andam os miúdos novos, como se não tivesse mais nada para fazer, como se os seus sapatos fossem novos e necessitassem de ser acomodados aos pés. Caminhava distraído pela cidade, os sons eram todos diferentes, os cheiros todos extraordinários e as paredes, essas já não se moviam contra ele num apertado gesto constrito, o coração já não fintava as ruas nem se mascarava perante os olhos quentes e frios das pessoas, em vez disso misturava-se com a vida dos que por ele passavam naquele dia, onde todos saíram à rua para lhe dar as boas vindas. De regresso a casa, mãos nos bolsos, a descontração constante de um homem apaixonado mas visivelmente cansado, reparou ao longe abeirada na sua porta, o semblante de uma mulher, ajeitou os óculos e olhou-a, a mesma pele branca e a mesma face rosada que deixava transparecer suavemente as veias do queixo, aquelas veias que ele tanto conhecia, que ele tanto beijara. O cabelo dourado, longo e liso caído sob os ombros. Ela esperava-o, como se aguardasse o infinito, atenta à rua como uma adolescente à espera de um beijo prolongadamente eterno, até que o viu. Numa camara lenta de sentidos os olhos cruzaram-se como se cruzam todos os olhos gémeos, sem preconceito fixando as testas, os narizes, as bocas, os lábios, as rugas, os corpos e o tempo num só momento. Não sei quanto tempo deixou o tempo que ficassem naquele estado de embriaguez, mas a língua do velho cujos discursos treinara durante anos vezes sem conta ficara presa, a escassos metros, escapando-lhe apenas da boca um soluço, seguido de outro, uma lágrima e depois outra, talvez as suficientes para levar as mãos à cara. Sim, os homens também choram e os velhos por vezes lacrimejam escondidos, como se a vergonha lhes ocupasse o lugar da humanidade, sem temor ela alcançava-o num caminhar desesperado, como se toda a eternidade dependesse daqueles dois velhos miúdos, e o abraço foi terno e apertado, cabia dentro dele todo o universo onde as faces se encontravam e as lágrimas se misturavam numa alquimia perfeita, as mãos trémulas percorriam as costas, os braços a cara e o calor era morno, humano, demasiado humano, fazendo crer que os velhos também amam, também sentem, também vivem.
Acordei às três e quarenta e dois, outra vez...
O relógio brilhava no escuro como se me estivesse a gozar:
“Olha ele, o poeta da merda, mais uma noite sem dormir.”
Levantei-me devagar, aquele peso de quem já viveu vidas a mais dentro da mesma pele. A casa estava silenciosa, os miúdos a dormir, o mundo a fazer de conta que é normal. Fui à cozinha, abri o frigorífico, fechei o frigorífico. Nem fome, nem sede. Só aquele buraco no peito que já devia pagar renda.
Sentei-me à mesa com o caderno, aqueles cadernos de capa preta, compro-os as quantidades. A velha história.
Caneta, papel, e um tipo de quarenta e tal anos que ainda escreve como se tivesse vinte e estivesse prestes a explodir de amor e de medo.
“Se eu não fosse seria um sinónimo de coisa nenhuma”, escrevi num poema recente. E parei.
Conhecia aquela voz. Era minha, mas de outro tempo.
Tanta folha branca rasgada, tanta madrugada que cheira a nada e a ti ao mesmo tempo.
Tu.
Caralho, tu outra vez.
Não estávamos juntos há anos, mas continuavas a aparecer na mesma hora: entre as três e as quatro, quando o silêncio da casa fica grosso como fumo de cigarro barato e o corpo decide lembrar-se que tem coração.
Um coração burro, insistente, desses que não lê o contrato da vida e assina tudo o que aparece.
Agarrei na caneta com mais força.
Senti o velho ritual: primeiro vem a saudade, depois vem a raiva, depois vem a poesia a tentar salvar o que resta.
— Vai passar — murmurou uma parte de mim.
Mas eu conheço bem essa frase.
“Vai passar e quando passar vou-me embora”, escrevi no caderno.
A merda é que passou, eu continuei aqui e nunca fui embora de lado nenhum.
Fiquei preso aqui, na mesma pele, na mesma ausência.
Há uma suavidade que permanece nos lugares onde a luz não chega.
Tu eras essa suavidade, foda-se. O problema é que ao mesmo tempo eras a ferida aberta debaixo dela.
Lembrei-me das noites em que eu dizia que só queria um abraço, um beijo, qualquer coisa, e vinha em troca um silêncio cheio de medos teus. Essa tua parte racional mais neutra, faz com que decides mais com a cabeça do que com o coração, isso sempre me pareceu um crime perfeito: matava-me devagar, sem deixar provas.
Encostei as costas na cadeira, olhei para o teto como se Deus tivesse lá deixado um post-it esquecido aqui por cima.
— O que é que eu ainda estou aqui a fazer?
A resposta veio como sempre: escrever.
Escrever é a forma que arranjei de não morrer afogado naquilo que sinto.
Escrevo para lembrar que vivi. Para lembrar que amei como um idiota.
Escrevo porque quando não escrevo, a tristeza cresce como erva daninha na cabeça.
Lembrei-me de quando decidi deixar de comer carne porque percebi que o verdadeiro animal era eu.
Continuo a pensar o mesmo.
Continuo a achar que a humanidade é um erro ortográfico que alguém se esqueceu de corrigir.
A única coisa que presta, às vezes, é isto: um tipo sozinho à mesa, a sangrar palavras para um caderno, enquanto toda a gente finge que está tudo bem.
Pensei no miúdo que fui, naquele puto de quinze anos que te beijou no elevador, faminto de vida que tu amaste sem filtros.
Matei esse cabrão algures no caminho, asfixiei-o devagar com empregos, contas, obrigações, responsabilidades, reuniões de merda, senhas retiradas em repartições públicas e conversas vazias sobre o tempo.
Mas há noites... há noites fodidas, como esta, em que ele volta.
Volta quando escrevo “Deste modo eu penso em ti como se a complexidade da vida estivesse em descrever-te”.
Volta quando confesso que ainda tenho fome da tua boca, mesmo que já só exista na memória.
É ridículo.
Um homem feito, pai, trabalhador, a falar sozinho na cozinha com um fantasma.
Mas é isso ou enlouquecer de vez.
A caneta recomeçou a mexer-se sozinha:
Numa madrugada já rasgada pelo tempo
Onde o silêncio se confunde com o ar
Eu noturno divago sobre mim
“Numa madrugada já rasgada pelo tempo
Onde o silêncio se confunde com o ar, eu noturno divago sobre mim”
Li em voz baixa.
Soube-me honesto.
Soube-me cruel.
Soube-me pouco.
— Foda-se, isto não chega.
Queria gritar mais alto. Queria escrever como quem parte um copo contra a parede. Queria prender-te ao papel de vez, como quem agrafa um aviso na porta do Universo: “AQUI MORREU UM AMOR DO CARALHO! DO CARALHO”
Mas a verdade é que eu não sei matar-te.
Nunca soube.
O máximo que consigo é isto: transformar-te em poema, em prosa torta, em capítulo de livro que ninguém sabe se vai ficar pronto. Há quem chame a isto arte. Eu chamo sobrevivência, a minha sobrevivência.
Acendi a luz fraca da sala, aquela que não acorda ninguém.
Olhei em volta.
A casa, as coisas, os objetos, o sofá onde às vezes me deito a pensar que a vida podia ter sido outra, se eu tivesse sido menos medroso, ou se tu não tivesses sido sempre tão racional.
Eu, tu, as probabilidades falhadas.
Podíamos ter sido tudo.
Fomos quase.
E o “quase” é uma palavra fodida: pesa mais do que o “nunca”.
Voltei ao caderno.
Escrevi:
“E escrevo, escrevo tudo o que vejo
Escrevo tudo o que sinto”
Olhei para a frase e percebi que já a conhecia, de outra madrugada, de outro ano, de outro eu.
Estava tudo ligado: 2003, 2005, 2010, 2015, hoje.
O mesmo homem, em versões diferentes, a bater nas mesmas paredes invisíveis.
Ri-me sozinho.
— No fim ficam sempre as palavras e uma mão cheia de ilusões. Ou então não.
Fechei o caderno.
O mundo lá fora começava a ficar claro devagarinho, aquele cinzento sujo antes do dia decidir que cor vai usar.
Levantei-me da mesa com a sensação estranha de que, por hoje, tinha sobrevivido.
Não tinha resolvido merda nenhuma: tu continuavas longe, a humanidade continuava uma desgraça, e o miúdo de vinte anos continuava morto algures debaixo das contas por pagar.
Mas eu ainda escrevia.
Enquanto escrevo, ainda estou vivo.
Fui ao quarto.
Olhei para os miúdos a dormir.
Ali estava a única parte da vida que eu não conseguia transformar em poema porque é maior do que qualquer verso.
— Um filho nunca é nosso — pensei. — Mas eles são o mais perto que já estive de Deus.
Tapei-os melhor, respirei fundo.
A saudade de ti continuava cá, mordendo-me o peito.
Mas, pela primeira vez naquela noite, ela cabia dentro de uma frase.
E isso, para mim, já era uma pequena vitória. Uma daquelas vitórias silenciosas que ninguém vê, mas que salvam um homem de se afundar de vez.
Voltei para a cama.
O relógio marcava 5h17.
Talvez dormisse.
Talvez não.
Uma coisa é certa, amanhã de madrugada, se a saudade viesse outra vez, eu estava aqui.
Papel e caneta e este coração que vai sobrevivendo
Se o som das palavras que me amarram
Pudesse alguma vez soltar-se
Eu descreveria com a minha voz
Uma dor que já não dói
Falava em voz alta e de cabeça erguida
E então ouviam-se as palavras
Ouviam-se histórias contadas aos cantos
De quem ama como ama o amor
De quem sofre lentamente
Mesmo que me fizesse chorar
Pois um homem também chora
Também se entristece
Também sente quando alguém não está presente
Se as palavras se soltassem
Eu voava sem ter medo da altura
Se eu não fosse
Seria um sinónimo de coisa nenhuma
Então, também eu não teria acontecido
Não seria
Seria puramente nada
Mas seria um vazio implorante de tudo
Eu seria um vazio chato e reclamante
Mas nunca me perderia
Eu seria o silêncio
Seria a semente do acordar
Que não adormecia
Mas que queria florescer
Ah... Se eu não fosse nada
E o mundo fosse tudo?
Será que eu queria ser?
Não...
Não queria todos os dias o ritual do mundo
E aquela saudade do vazio, do nada
Iria certamente aborrecer-me
E transformar-me no tudo que sou
Lamento para mim ter perdido aquele sabor
O sabor de saber amar
Talvez não consiga amar já
É a definição de tristeza pura
Leva-me aonde não fui
Leva-me à ternura desse saber
Dessa moda intemporal
Não quero o espaço do vazio
Não quero as palavras não escritas
Não ditas
Talvez o sabor tenha ficado preso no tempo
Congelado num continente distante
A minha cara parece não mostrar o que sinto
Mas não...
Os meus olhos não me mentem
Apenas me assustam
E desesperam
Caem no infinito
Desmontam-se em peças
Abrigam-se ocultos