tenho saudades dos velhos telefones
aqueles que levantava o auscultador
e o mundo ficava suspenso
tinha de rodar a roda no centro
para marcar um numero de cada vez
como quem ainda pensava
ás vezes a meio do numero, já não queria falar com ninguém
desligava
percebia-se a verdade
era simples mas não era estúpido
agora essas coisas
tornaram-se simples demais
banais demais
as coisas perderam peso
as palavras também
e com essas banalidades vieram as redes sociais
outra merda sem jeito em que as pessoas
gritam palavras vazias
para outro grupo de pessoas ainda mais vazio
uma latrina iluminada
ninguém escuta
ninguém sente
todos falam
mas esses telefones
parecia que ouvia o silêncio a julgar-te
era um compromisso ligar a alguém
não havia dedos nervosos
nem likes
nem essa masturbação digital
agora tudo é fácil demais
as pessoas falam sem pensar
amam sem sentir
fodem sem se tocar
a verdade é que ninguém quer silêncio
ninguém aguenta estar sozinho
todos berram
para não ouvir o vazio que trazem lá dentro
chamam a isso progresso
eu chamo-lhe suicidio lento