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quarta-feira, junho 30, 2021

Tempo

Há muitos, muitos anos, talvez até tantos quanto poderemos pensar, houve um fantasma, era um homem que pela sua morte se tornou numa alma penada, não é que tivesse penas de pato, ganso ou até de avestruz. Não, nada disso, mas de facto não era um qualquer fantasma, nem sequer era assustador ou assustava alguém como é suposto os fantasmas fazerem, pelo menos os que eu conheço. 

    Certo dia, depois de fazer todas as coisas que os fantasmas fazem pela manhã, ele deambulava por onde passeava todos os dias, à mesma hora e para seu espanto reparou que o seu relógio estava parado. Algo que ele nunca tinha dado conta porque raramente se dava conta do tempo. A coisa preocupou-o tanto que naquele momento ele parou, ali mesmo no meio da rua e ficou a olhar atentamente para o ponteiro que não se movia, que parecia estar morto como ele. Pensou para si mesmo “Mas que raio! Querem ver que o meu relógio morreu também?” e começou a correr preocupado a tentar encontrar um relojoeiro. De facto ali perto, havia há muitos anos uma relojoaria, uma loja onde fabricavam e arranjavam os mais complexos relógios. Sem saber as horas só pensava no seu relógio parado, andou e andou até que encontrou finalmente uma loja com uma grande porta de madeira onde se podia ler em letras bem grandes “O tempo não para, e os relógios também não devem parar.”. – Que ironia – Pensou. Assim que chegou ficou parado à porta, o seu inexistente coração batia como um relógio apressado, infelizmente não conseguiu entrar na loja, um pequeno cartaz anunciava que fechara para férias. Cabisbaixo, o fantasma olhava para o seu relógio fixamente e pensava se alguma vez mais iria ver os seus ponteiros a andar novamente. Quando se deu conta, era de noite e apercebeu-se uma vez mais que o seu relógio tinha as mesmas horas, as horas em que tinha parado, precisamente seis e trinta e quatro. Já nem ele sabia que horas eram, perdera a noção do tempo, mesmo em vida as horas para ele pareciam nunca passar, mas, naquela noite, era uma noite diferente, o seu relógio tinha parado e com ele o tempo, como que petrificado, isolado de qualquer atividade numerológica. Aquele fantasma sentia-se verdadeiramente deprimido. 

    Sentou-se num banco de jardim ali perto e decidiu esperar que a grande porta de madeira se abrisse. Passou um dia, dois dias, três dias, uma semana, duas semanas e nada. - Mas que raio! Quem será que tira tantos dias de férias? – Pensou indignado. Ao pensar isto, reparou num pequeno homem que caminhava em direção à porta e pensou: “Finalmente alguém para me abrir a porta e arranjar o meu relógio.” Levantou-se e saiu a correr, entrou, falou, esperou e falou novamente, mas ninguém o ouvia, nem sequer o viam, a não ser um pequeno e stressado cão que ali estava sentado a abanar o seu rabo preto, o cão via-o, dizem que os cães veem os fantasmas, não sei, é o que dizem. O pequeno homem atrás do balcão disse em voz baixa: “Estou a ver aqui um relógio que não trabalha.”. Rapidamente um sorriso surgiu na cara do fantasma. Pensou logo que era ele e o seu relógio, e num ápice tirou o relógio do pulso e poisou-o em cima do balcão. O relojoeiro nem sequer olhou para o relógio, para ele não havia nada no balcão a não ser uma velha caixa registadora e uma pequena caixa de velhos botões. O fantasma triste disse: - Mas que raio! Se ao menos alguém me ouvisse! - Mas ninguém o ouviu, exceto o cão que o olhava com olhos de tédio e já não abanava o rabo preto. Voltou a pegar no relógio e colocou-o no pulso, no momento em que se preparava para apertar a bracelete reparou em algo que nunca tinha reparado antes, um pequeno botão redondo situado no lado oposto ao número três, um pequeno mecanismo escondido. Curioso o fantasma decidiu rodar aquele pequeno botão redondo para trás, mais precisamente duas pequenas voltas. Naquele preciso instante, o fantasma e o seu relógio regressaram ao banco de jardim, precisamente em frente à loja do relojoeiro e precisamente onde ele tinha estado dias antes. Confuso, voltou a rodar o botão duas voltas para a frente, para seu espanto deu consigo instantaneamente dentro da loja do relojeiro novamente no dia presente. – Que raio de magia é esta? – Pensou ainda mais confuso. Decidiu então dar voltas e voltas para trás no botão redondo e deu consigo no banco de jardim, no primeiro dia em que se tinha sentado à espera que a relojoaria abrisse. Ele não queria acreditar no que estava a acontecer e voltou a rodar, a rodar e a rodar para trás aquela pequena roda mágica, rodou-a tantas vezes quantos os dias o seu relógio tinha parado. Mais precisamente no início do dia, reparou que quando acordou não tinha dado corda ao seu relógio e assustou-se como se fosse um fantasma pela primeira vez. Como se ele nunca se tivesse assustado. De seguida lembrou-se que era um fantasma, quis rodar a roda do seu relógio para momentos antes da sua morte, mas, simplesmente não conseguia, a pequena roda ficava presa, como que bloqueada, parecia não querer voltar tanto tempo atrás no tempo, talvez porque o corpo do fantasma não estava mais lá, estava ausente. Ele compreendeu então que o grande desconhecido era o seu estado atual e ficou triste, triste como nunca um fantasma até então teria ficado, pensava em coisas que nunca tinha pensado e deu conta de que não iria mais sentir o abraço apertado de alguém. Profundamente triste voltou a rodar a roda do seu relógio para a frente, rodou e rodou e rodou, precisamente até ao dia em que pousara o relógio no balcão do relojoeiro. Saiu da loja e reparou que havia uma paragem de autocarro com uma enorme tabuleta que dizia “Destino: Nova vida”. Sentou-se e aguardou. 

segunda-feira, agosto 12, 2019

De dentro para fora

Existem diversas casas em Oiã, tantas que nem eu sei dizer: brancas, amarelas, verdes, vermelhas e de muitas outras cores. Copiam-se umas às outras e perdem-se de vista. Nenhuma, porém, é tão misteriosa como a casa mais antiga da vila.

Na verdade, trata-se de um pequeno palácio esquecido no tempo, abandonado e quase sem vida — quase, porque ainda se ouvem pássaros e se veem lindos gatos ronronantes a brincar nos jardins em volta. Mesmo assim, diz-se que um velho conde terá lá vivido há centenas de anos e que a casa se tornou assombrada. Contam-se histórias de uma misteriosa mulher, ou até de uma família inteira, que ali teria vivido.

Pouco se sabe sobre aquele palacete e a sua história; o que se soube perdeu-se no tempo. Havia algo que habitava a casa — e não eram só aranhas, baratas, ratos ou gatos cinzentos. Um fantasma vivia tranquilamente dentro daquelas paredes. Não se ouvia. Não era um fantasma qualquer, nem tinha um ar assustador como poderíamos pensar. Na realidade, nem se via: era uma espécie de homem invisível, ou lá como se chamam as coisas que a gente não vê. Também não era conde; de conde nada tinha. Mas era um fantasma, fazia as coisas que os fantasmas fazem e, curiosamente, tinha medo de fantasmas.

Todos os dias, pela manhã, depois de várias meias-horas a passear pelo jardim labiríntico, dirigia-se à biblioteca que ficava por baixo da casa, acessível apenas através de um mecanismo secreto no salão de música. Perto da janela havia um gancho junto a uma estrutura de ferro onde se prendia o cortinado. Três voltas à esquerda, duas à direita e uma ligeira pressão para dentro — e, automaticamente, no lado oposto, junto ao chão, abria-se uma escada em caracol.

Foram poucos os proprietários que conheceram a sua existência, ao contrário desse ser invisível que já dominava a engenhoca desde o início da construção. A escada de madeira dava acesso a uma antiga biblioteca, tão antiga quanto ele, tão antiga quanto as paredes altas que guardavam os livros em estantes de carvalho escurecido, onde o cheiro do papel se confundia com o da madeira. O teto erguia dez cúpulas, minuciosamente decoradas com afrescos; junto às estantes, longos escadotes de madeira. Os livros preenchiam as paredes — pequenos, grandes, milhares — cuidadosamente catalogados e numerados.

Havia livros de todos os tipos e tamanhos: grandes livros de culinária com capas duras e títulos em letras largas; enciclopédias de saúde em vários volumes, com capas de couro e letras douradas; aventuras e romances; poesia em grossas capas vermelhas, azuis e pretas; crimes inventados, anedotas e adivinhas; livros para crianças e publicações de várias épocas.

No centro da biblioteca, um enorme cadeirão de veludo verde marcava território. Ao lado, uma pequena mesa de madeira ornamentada lembrava a Floresta Negra. Se as manhãs eram passadas no jardim, o resto do dia era ali, na companhia de milhões de páginas. Lia e relia. Eram a sua companhia; juntos faziam uma ótima sociedade. Ler trazia-o de volta à vida. Lia um parágrafo, cerrava os olhos e visualizava: as pessoas viam-no e falavam-lhe; ele podia tocar os objetos e sentir; podia voltar a sentir todos os sentimentos.

Toda a sua existência ganhava sentido — como se renascesse das palavras e vivesse aquelas experiências vezes sem conta, as vezes que quisesse. Fascinou-se por Júlio Verne; e havia outros que, como ele, não lhe limitavam a imaginação.

Durante centenas de anos, ele leu e releu cada parágrafo, cada página. Mas, naquele dia, depois de observar os pássaros que voavam sobre os ratos que fugiam dos gatos, rodou o engenho: três voltas à esquerda, duas à direita, leve pressão — e desceu a escadaria. Num ápice, tocava as lombadas como se as pudesse ler num só instante, letra a letra, palavra a palavra. Subiu um escadote, e outro, e mais outro até à última estante do último andar, lá em cima, perto do teto.

Reparou que, ao lado do livro número novecentos e trinta e quatro, estava um volume sem numeração. Um livro desconhecido. Não compreendia por que não estava numerado. Aproximou-se e leu o título: Vida. Pensou: “Ora esta! Por que estava um pouco mais atrás? E por que nunca o teria lido nem sequer notado que aqui estava?”. Passou a mão pela lombada e retirou-o devagar, como se manobrasse algo frágil.

O livro tinha capa fina e muito macia — um veludo delicado de cor suave. Exalava um cheiro diferente de todos os outros: doce perfume a jasmim misturado com um leve odor a caramelo. Olhou para o livro — e o livro olhou-o de volta, como se o chamasse. Pela primeira vez, não sabia se escolhera o livro ou se o livro o escolhera a ele.

Não o abriu. Apenas o observou, curioso como uma criança. Tirou-lhe as medidas com os olhos, aspirou-lhe o cheiro, deixou que os dedos viajassem pelo título áspero cravado na capa. Que estariam ali escrito? Que viagem era esta que ainda não fizera? Desceu ao solo e foi até ao cadeirão. Sentou-se. Pousou o livro na pequena mesa.

Noutras circunstâncias estaria impaciente; agora, não. Apenas curioso: como pudera um livro escapar-lhe? Há quanto tempo estaria ali? Quem o teria trazido? Questões talvez sem resposta — e que talvez nem precisassem de resposta.

Pegou no livro, contemplou uma vez mais a textura suave e o título Vida, que brilhava diante dos seus olhos. Abriu a primeira página — e nada. Vazio. Folheou a segunda, a terceira e todas as que se seguiram — nada: nem uma única letra, nem uma palavra. Confuso, fechou o livro. Teve a sensação de que a capa o fitava. Pousou-o na mesa. No momento em que se levantava, o livro abriu-se sozinho: letras brotavam na primeira página como tinta numa tela mágica.

“Mas que magia é esta?”, pensou. Lera livros de magia, feitiços e outros; nunca um livro lhe quebrara a barreira do mundo físico. Depois de algum tempo, as letras tornaram-se nítidas e podia ler-se:

De dentro para fora
De fora para dentro
De dentro tudo trarás
De fora nada levarás

Ainda mais intrigado, aproximou-se. As palavras formavam-se letra a letra e, depois de lidas no pensamento, desapareciam sem deixar rasto — linha após linha, parágrafo após parágrafo. Isso não o impediu de continuar. Leu as páginas seguintes até começar a sentir o peso do seu corpo. As pernas, antes leves e sem forma, eram agora pernas de menino; os braços, de carne e osso; as mãos pequenas prendiam-se às da mãe e do pai.

Ouvia o riso das crianças e misturava-se com elas. Brincava; a sua voz ecoava como as vozes dos outros meninos. Era o rapaz que ficara perdido no tempo. Brincou e brincou com os amigos; construiu cavalos de batalha em palha, espadas de madeira, casas nas árvores — todas as brincadeiras do seu tempo.

Chegou a uma página em que o corpo mudou: jovem adulto, lutava para não sentir o calor intenso do fogo que lhe lembrava a perda do pai e da mãe. Chorou. Chorou tanto que parou de ler; soluçava; as lágrimas corriam-lhe pela face. No meio da multidão, tentava salvar vidas. Um adulto a quem fora revelada a dor da perda — e, de dentro para fora, era a única coisa que podia ser.

Parágrafo após parágrafo, voltou a sentir a alegria de viver: nasceu-lhe um filho; depois, uma filha; e outro filho; e mais outro. Era feliz. A sua companheira era a mulher que amava. De fora para dentro, nada o preenchia; eram o amor e a fraternidade da família que lhe davam conforto.

A pele macia ganhou rugas. Envelhecia e lia — como se a vida ecoasse naquelas páginas e, agora, o mundo fizesse sentido. Os netos corriam pela casa, desarrumavam-lhe os livros, arrancavam flores do jardim e puxavam o rabo aos gatos; mas também lhe tocavam as mãos e ele podia sentir, brincar e rir com eles. E lembrou-se, uma vez mais, de que a sua vida era feliz.

Muito velho, sentiu-se deitado numa cama, rodeado pelos filhos e netos. Compreendeu: de fora nada levaria para o grande desconhecido; levaria, sim, a beleza interior que experienciara em vida. Prestes a terminar a última palavra da última página, fechou os olhos. O corpo estremeceu uma última vez. Pousou o livro mágico na velha mesa, levantou-se — e dissolveu-se nos últimos raios de luz da tarde.

segunda-feira, abril 22, 2019

Os velhos

Naquele verão ela não veio, nem naquele nem nos outros que se seguiram. Passaram invernos e todas as estações do tempo, tantas que quase caíram em esquecimento. Terá sido um dia após o outro, uma semana após outra ou talvez ano após ano, até que as canções passaram de moda, como que, paradas num tempo que já não existia, mas as músicas deles não tinham parado, pelo menos para eles. Por vezes ele recordava no mesmo café de sempre, escutando com o ouvido da memória a canção Woman de John Lennon, outras subia-lhe o ritmo dos Rolling Stones, preenchiam-no por momentos com Wild Horses. Foi assim durante trinta e cinco anos. – Que fazes aqui? – Pergunta o velho sem medo. – Vim ver-te. – Responde ela. – Foda-se! Agora?! – Não me fales assim, nunca é tarde para reparar os nossos erros. Com os olhos postos no chão o velho diz: – Erros? Já não sei do que falas. Estás velha! Mas bonita. – Tu também, ainda tens os mesmos olhos. Vezes sem conta o velho ensaiava o discurso, falava sozinho como se ela ali estivesse para o ouvir. Sentava-se à janela e observava o tempo passar, imaginava as mãos dela nas suas e lembrava o toque que o deixava calmo. Passaram os Beatles, os The Doors e os Xutos, como se fossem composições numa estação de rádio ou a banda sonora da sua vida. Trim trim três da manhã, o telefone acorda o velho, meio sonâmbulo, atende com uma voz amarfanhada: - Estou? - João? És tu? - Sim! Quem fala? - Sou eu, a Maria. Não sabia se havia de rir ou chorar, nunca fizera tanto sentido a nota musical que marcara a presença do silêncio nos livros de música, silêncio, um velho e companheiro demasiado presente. - João estás aí? – Repetiu ela - Sim estou, é muito tarde. – A voz arrastada não lhe permitia falar. - Preciso de ti, o meu marido morreu há dois meses, sinto-me triste João, preciso de ti. – Disse ela como uma criança dentro de uma mulher. Ele desligou o telefone, pousou-o devagar na cabeceira, como se quisesse prolongar ainda mais a agonia de um ato de coragem. Adormecera como se não quisesse acordar. Tornara-se vulgar o cheiro a velho, ao fim de algum tempo até os espelhos deixaram de refletir as imagens dos dias que passam, talvez por causa disso já não se via ao espelho tantas vezes como os jovens imaturos. E as sopas, sempre as mesmas, deslavadas, o arroz, sempre o mesmo e também as mesmas batatas nos mesmos pratos brancos amarelados, assim como os mesmos sapatos e as camisas brancas ou azuis. Naquele dia todas as camisas pareciam diferentes e os sapatos quase novos e engraxados, até o café tinha um cheiro diferente, toda a solidão era um só pensamento alastrado durante dias e anos, impresso nas mãos dum corpo enrugado. A manhã era diferente, sobretudo cinzenta mas como se o sol brilhasse saiu à rua e a voz dela acompanhou-o, ouvia-a num murmúrio suave, confiscado entre o sonho e o sono. Fez o mesmo trajeto, passava à porta da oficina do António, o cheiro a gasolina e óleo fundia-se com o cheiro a pão da pastelaria ao lado. Ouvia Time is on my side dos Rolling Stones no seu leitor de mp3 que o neto lhe ofereceu num dos últimos aniversários, que ironia, ao mesmo tempo a voz dela no interior da sua cabeça, não sabia se estava contente por o marido ter batido as botas ou por valentia lhe ter desligado o telefone na cara, quebrando assim anos de solidão intensa. O velho estava diferente, parecia uma outra vida, apanhara o autocarro e queria almoçar peixe assado em Lisboa, sentar-se num restaurante qualquer, beber um copo de vinho e andar, andar por aí como andam os miúdos novos, como se não tivesse mais nada para fazer, como se os seus sapatos fossem novos e necessitassem de ser acomodados aos pés. Caminhava distraído pela cidade, os sons eram todos diferentes, os cheiros todos extraordinários e as paredes, essas já não se moviam contra ele num apertado gesto constrito, o coração já não fintava as ruas nem se mascarava perante os olhos quentes e frios das pessoas, em vez disso misturava-se com a vida dos que por ele passavam naquele dia, onde todos saíram à rua para lhe dar as boas vindas. De regresso a casa, mãos nos bolsos, a descontração constante de um homem apaixonado mas visivelmente cansado, reparou ao longe abeirada na sua porta, o semblante de uma mulher, ajeitou os óculos e olhou-a, a mesma pele branca e a mesma face rosada que deixava transparecer suavemente as veias do queixo, aquelas veias que ele tanto conhecia, que ele tanto beijara. O cabelo dourado, longo e liso caído sob os ombros. Ela esperava-o, como se aguardasse o infinito, atenta à rua como uma adolescente à espera de um beijo prolongadamente eterno, até que o viu. Numa camara lenta de sentidos os olhos cruzaram-se como se cruzam todos os olhos gémeos, sem preconceito fixando as testas, os narizes, as bocas, os lábios, as rugas, os corpos e o tempo num só momento. Não sei quanto tempo deixou o tempo que ficassem naquele estado de embriaguez, mas a língua do velho cujos discursos treinara durante anos vezes sem conta ficara presa, a escassos metros, escapando-lhe apenas da boca um soluço, seguido de outro, uma lágrima e depois outra, talvez as suficientes para levar as mãos à cara. Sim, os homens também choram e os velhos por vezes lacrimejam escondidos, como se a vergonha lhes ocupasse o lugar da humanidade, sem temor ela alcançava-o num caminhar desesperado, como se toda a eternidade dependesse daqueles dois velhos miúdos, e o abraço foi terno e apertado, cabia dentro dele todo o universo onde as faces se encontravam e as lágrimas se misturavam numa alquimia perfeita, as mãos trémulas percorriam as costas, os braços a cara e o calor era morno, humano, demasiado humano, fazendo crer que os velhos também amam, também sentem, também vivem.