domingo, janeiro 04, 2026

Em 1995
Lisboa cheirava a gasóleo
Cigarros baratos
E a qualquer coisa podre que vinha do tejo
Quando a maré estava baixa

Eu era um puto
Com ténis cansados
E sonhos grandes demais para o bolso das calças

Andava de comboio com bilhete 
A fingir que não via o pica
Como se isso já fosse um treino para a vida adulta

O Rossio era um sítio sério
Cheio de homens cansados
Mulheres com sacos de plástico
E putas discretas
Que sabiam mais sobre o mundo
Do que todos os professores juntos

Os velhos ainda jogavam à sueca
Com copos de bagaço
E histórias da tropa
Poucos falavam de sentimentos
Isso era coisa de ricos
Ou de malucos

Eu aprendia tudo 
Como se aprende a levar murros
Devagar
À custa de erros
E com vergonha incluída

Havia lojas de música na rua 
Cassettes piratas
Guns N’ Roses
Nirvana
Metallica
Xutos
Tudo misturado
Como se o mundo estivesse a ensaiar
Qual seria o próximo desastre

As raparigas fumavam às escondidas
E falavam de fugir
Eu queria conhece-las, beijá-las
Mas era mais timido
Mal sabia falar
Por isso escrevia merdas num caderno
Como quem confessa pequenos crimes

A minha mãe
Era o chão firme
A única voz estável
Num mundo que abanava
Apoiava-me em silêncio
Como quem sabe que amar um filho
Às vezes é só não o deixar cair

O meu pai quando o via
Bebia demais
Não foi um vilão
Foi só ausente
Que é outra forma de ferida
Mais difícil de explicar

Aprendi cedo
Que as famílias
Também se partem
E que ninguém te ensina como lidar com essa merda

Acho que os amigos e a rua trataram do resto

Os adultos fingiam saber o que faziam
E eu percebia que ninguém sabe porra nenhuma
Só finge melhor com a idade

Acho que foi por isso que fui para o karate uns anos antes
Não para ser duro
Mas para não ser fraco
Num mundo que não perdoava ninguém

Naquele tempo o dojo cheirava a suor
A respeito
E a regras simples
Ali se caías
Levantavas-te
Não havia conversa

Aprendi a conter a raiva
A respirar antes do golpe
A perceber
Que perder o controlo é sempre derrota

Depois vinha Lisboa outra vez
O comboio
Feira da Ladra
Raparigas a fumar
Com olhos de fuga
E música pirata
A tentar dar sentido às horas

Em 1995
Lisboa não prometia futuro
Prometia resistência

Aprendi cedo
que sobreviver
já era uma forma de vitória

Poucos falavam de yoga ou meditação em 95
Muito menos para putos
Mas eu precisava
De um lugar
Onde o corpo baixasse a guarda
E a cabeça
Não tivesse de fingir

No karaté
Aprendi a enfrentar
Na meditação
Aprendi a ficar

Uma ensinou-me a sobreviver à rua
A outra a sobreviver a mim

Cresci assim
Hoje
Quando volto às mesmas ruas
O puto ainda anda comigo
Menos tenso
Mais consciente

Aprendi que a força sem consciência
É só herança mal resolvida

E que sobreviver em Lisboa não era ser duro
era saber quando fechar os punhos
e quando os abrir.