domingo, janeiro 04, 2026

 

Acordei a pensar em 1995, o que é sempre um mau sinal. Dizem que quando a cabeça vai buscar anos específicos é porque alguma coisa antiga voltou a doer. Fiquei deitado uns minutos a olhar para o teto, levantei-me, deitei-me novamente a tentar perceber como é que um puto do Cacém aprendeu tão cedo a fechar os punhos e a respirar ao mesmo tempo.

Lembro-me do karate não como vitória, mas como contenção. Não era para bater em ninguém, era só para não rebentar por dentro. A meditação veio depois, quase em segredo, como quem descobre um esconderijo dentro do próprio corpo. Ninguém falava disso, mas eu precisava de um sítio onde a raiva baixasse de volume.

A minha mãe aguentava o barco como podia. Às vezes é só isso que precisamos, que o barco continue a não se afundar. Ainda acordo de vez em quando a pensar nisto, sobretudo quando a casa está em silêncio e os miúdos dormem.

Percebo agora que muita coisa do que sou nasceu ali na rua, no dojo, no meu  quarto a respirar devagar. Não virei santo, nem exemplo de nada. Virei só um homem, pai.

Escrever isto não muda 1995. Ajuda-me a ter sono e talvez a não repetir o que veio de lá. Para esta madrugada, já chega.