No fim do ano
As pessoas falam mais baixo com o calendário
Talvez como se fosse Deus
“No próximo ano é que vou mudar de vida”
“Vou fazer dieta e comer melhor”
“Vou ser uma pessoa melhor”
Claro que sim
O tipo do café continua a tirar cafés com a mesma cara fodida
A mulher da limpeza continua a apanhar os cinzeiros como se fossem pecados
O chefe continua a mandar mails às 18h59
E tu continuas a acordar cansado a meio da noite
Com a sensação de que alguma coisa ficou por viver
E não sabes o quê
Lá fora vão-se enchendo copos de espumante barato
Vestem-se lantejoulas por cima de velhas frustrações
As pessoas contam regressivamente...
Como se 10, 9, 8… fosse dinamite pronto a rebentar com a merda do passado
Mas quando o fogo de artifício acaba
Só ficas tu
O teu corpo usado
O frigorífico meio vazio
A conta bancária meia morta
E a mesma saudade de coisas que nem sabes nomear
Não vai aparecer ninguém à meia-noite
Para te salvar da tua própria cabeça
Não vai cair do céu um novo contrato
Um amor novo
Um cérebro novo
No máximo
Se tiveres sorte
Um abraço decente
Um copo que não esteja partido
Uma gargalhada honesta
Daquelas que não ficam bem na fotografia
A verdade é esta:
O novo ano não existe
É só o mesmo cão velho
Com um número novo na coleira
O que pode ser novo
Se quiseres mesmo
Não é o ano
És tu...
Não aquela versão iluminada dos cursos motivacionais
Mas o tipo que decide num dia qualquer de janeiro
Que já não se volta a encolher tanto
Já não diz sim quando quer dizer não
Já não abre a porta a quem entra só para foder a tua paz
E depois vai-se embora com o tapete
Talvez este ano
Não consigas ser feliz
Que palavra de merda, “feliz”
Mas quem sabe
Consigas ser um bocadinho menos cobarde contigo mesmo
Tomar um café sem te odiares tanto
Dizer “não quero”
Sem justificar tudo com três páginas
Talvez este ano
Não encontres o amor da tua vida
Mas consigas amar melhor os miúdos
Ou o teu silêncio
Ou o teu corpo cansado
Sem o tratar sempre como lixo
No fim do ano
Quando estiverem outra vez a gritar
“Feliz ano novo!”
Tu faz o seguinte:
Agarra num papel qualquer
Escreve só uma coisa
Uma pequenina
Do tipo:
“Não vou mentir tanto a mim mesmo.”
Dobra o papel
Mete no bolso
E vai viver
Sem arcos de luz
Sem preces ao calendário
Sem grandes merdas
Só tu
O velho ano disfarçado de novo
Um coração amassado
E uma teimosia qualquer em continuar aqui
Não é bonito
Não é épico
Mas às vezes
É o suficiente.