segunda-feira, agosto 12, 2019

De dentro para fora

Existem diversas casas em Oiã, tantas que nem eu sei dizer: brancas, amarelas, verdes, vermelhas e de muitas outras cores. Copiam-se umas às outras e perdem-se de vista. Nenhuma, porém, é tão misteriosa como a casa mais antiga da vila.

Na verdade, trata-se de um pequeno palácio esquecido no tempo, abandonado e quase sem vida — quase, porque ainda se ouvem pássaros e se veem lindos gatos ronronantes a brincar nos jardins em volta. Mesmo assim, diz-se que um velho conde terá lá vivido há centenas de anos e que a casa se tornou assombrada. Contam-se histórias de uma misteriosa mulher, ou até de uma família inteira, que ali teria vivido.

Pouco se sabe sobre aquele palacete e a sua história; o que se soube perdeu-se no tempo. Havia algo que habitava a casa — e não eram só aranhas, baratas, ratos ou gatos cinzentos. Um fantasma vivia tranquilamente dentro daquelas paredes. Não se ouvia. Não era um fantasma qualquer, nem tinha um ar assustador como poderíamos pensar. Na realidade, nem se via: era uma espécie de homem invisível, ou lá como se chamam as coisas que a gente não vê. Também não era conde; de conde nada tinha. Mas era um fantasma, fazia as coisas que os fantasmas fazem e, curiosamente, tinha medo de fantasmas.

Todos os dias, pela manhã, depois de várias meias-horas a passear pelo jardim labiríntico, dirigia-se à biblioteca que ficava por baixo da casa, acessível apenas através de um mecanismo secreto no salão de música. Perto da janela havia um gancho junto a uma estrutura de ferro onde se prendia o cortinado. Três voltas à esquerda, duas à direita e uma ligeira pressão para dentro — e, automaticamente, no lado oposto, junto ao chão, abria-se uma escada em caracol.

Foram poucos os proprietários que conheceram a sua existência, ao contrário desse ser invisível que já dominava a engenhoca desde o início da construção. A escada de madeira dava acesso a uma antiga biblioteca, tão antiga quanto ele, tão antiga quanto as paredes altas que guardavam os livros em estantes de carvalho escurecido, onde o cheiro do papel se confundia com o da madeira. O teto erguia dez cúpulas, minuciosamente decoradas com afrescos; junto às estantes, longos escadotes de madeira. Os livros preenchiam as paredes — pequenos, grandes, milhares — cuidadosamente catalogados e numerados.

Havia livros de todos os tipos e tamanhos: grandes livros de culinária com capas duras e títulos em letras largas; enciclopédias de saúde em vários volumes, com capas de couro e letras douradas; aventuras e romances; poesia em grossas capas vermelhas, azuis e pretas; crimes inventados, anedotas e adivinhas; livros para crianças e publicações de várias épocas.

No centro da biblioteca, um enorme cadeirão de veludo verde marcava território. Ao lado, uma pequena mesa de madeira ornamentada lembrava a Floresta Negra. Se as manhãs eram passadas no jardim, o resto do dia era ali, na companhia de milhões de páginas. Lia e relia. Eram a sua companhia; juntos faziam uma ótima sociedade. Ler trazia-o de volta à vida. Lia um parágrafo, cerrava os olhos e visualizava: as pessoas viam-no e falavam-lhe; ele podia tocar os objetos e sentir; podia voltar a sentir todos os sentimentos.

Toda a sua existência ganhava sentido — como se renascesse das palavras e vivesse aquelas experiências vezes sem conta, as vezes que quisesse. Fascinou-se por Júlio Verne; e havia outros que, como ele, não lhe limitavam a imaginação.

Durante centenas de anos, ele leu e releu cada parágrafo, cada página. Mas, naquele dia, depois de observar os pássaros que voavam sobre os ratos que fugiam dos gatos, rodou o engenho: três voltas à esquerda, duas à direita, leve pressão — e desceu a escadaria. Num ápice, tocava as lombadas como se as pudesse ler num só instante, letra a letra, palavra a palavra. Subiu um escadote, e outro, e mais outro até à última estante do último andar, lá em cima, perto do teto.

Reparou que, ao lado do livro número novecentos e trinta e quatro, estava um volume sem numeração. Um livro desconhecido. Não compreendia por que não estava numerado. Aproximou-se e leu o título: Vida. Pensou: “Ora esta! Por que estava um pouco mais atrás? E por que nunca o teria lido nem sequer notado que aqui estava?”. Passou a mão pela lombada e retirou-o devagar, como se manobrasse algo frágil.

O livro tinha capa fina e muito macia — um veludo delicado de cor suave. Exalava um cheiro diferente de todos os outros: doce perfume a jasmim misturado com um leve odor a caramelo. Olhou para o livro — e o livro olhou-o de volta, como se o chamasse. Pela primeira vez, não sabia se escolhera o livro ou se o livro o escolhera a ele.

Não o abriu. Apenas o observou, curioso como uma criança. Tirou-lhe as medidas com os olhos, aspirou-lhe o cheiro, deixou que os dedos viajassem pelo título áspero cravado na capa. Que estariam ali escrito? Que viagem era esta que ainda não fizera? Desceu ao solo e foi até ao cadeirão. Sentou-se. Pousou o livro na pequena mesa.

Noutras circunstâncias estaria impaciente; agora, não. Apenas curioso: como pudera um livro escapar-lhe? Há quanto tempo estaria ali? Quem o teria trazido? Questões talvez sem resposta — e que talvez nem precisassem de resposta.

Pegou no livro, contemplou uma vez mais a textura suave e o título Vida, que brilhava diante dos seus olhos. Abriu a primeira página — e nada. Vazio. Folheou a segunda, a terceira e todas as que se seguiram — nada: nem uma única letra, nem uma palavra. Confuso, fechou o livro. Teve a sensação de que a capa o fitava. Pousou-o na mesa. No momento em que se levantava, o livro abriu-se sozinho: letras brotavam na primeira página como tinta numa tela mágica.

“Mas que magia é esta?”, pensou. Lera livros de magia, feitiços e outros; nunca um livro lhe quebrara a barreira do mundo físico. Depois de algum tempo, as letras tornaram-se nítidas e podia ler-se:

De dentro para fora
De fora para dentro
De dentro tudo trarás
De fora nada levarás

Ainda mais intrigado, aproximou-se. As palavras formavam-se letra a letra e, depois de lidas no pensamento, desapareciam sem deixar rasto — linha após linha, parágrafo após parágrafo. Isso não o impediu de continuar. Leu as páginas seguintes até começar a sentir o peso do seu corpo. As pernas, antes leves e sem forma, eram agora pernas de menino; os braços, de carne e osso; as mãos pequenas prendiam-se às da mãe e do pai.

Ouvia o riso das crianças e misturava-se com elas. Brincava; a sua voz ecoava como as vozes dos outros meninos. Era o rapaz que ficara perdido no tempo. Brincou e brincou com os amigos; construiu cavalos de batalha em palha, espadas de madeira, casas nas árvores — todas as brincadeiras do seu tempo.

Chegou a uma página em que o corpo mudou: jovem adulto, lutava para não sentir o calor intenso do fogo que lhe lembrava a perda do pai e da mãe. Chorou. Chorou tanto que parou de ler; soluçava; as lágrimas corriam-lhe pela face. No meio da multidão, tentava salvar vidas. Um adulto a quem fora revelada a dor da perda — e, de dentro para fora, era a única coisa que podia ser.

Parágrafo após parágrafo, voltou a sentir a alegria de viver: nasceu-lhe um filho; depois, uma filha; e outro filho; e mais outro. Era feliz. A sua companheira era a mulher que amava. De fora para dentro, nada o preenchia; eram o amor e a fraternidade da família que lhe davam conforto.

A pele macia ganhou rugas. Envelhecia e lia — como se a vida ecoasse naquelas páginas e, agora, o mundo fizesse sentido. Os netos corriam pela casa, desarrumavam-lhe os livros, arrancavam flores do jardim e puxavam o rabo aos gatos; mas também lhe tocavam as mãos e ele podia sentir, brincar e rir com eles. E lembrou-se, uma vez mais, de que a sua vida era feliz.

Muito velho, sentiu-se deitado numa cama, rodeado pelos filhos e netos. Compreendeu: de fora nada levaria para o grande desconhecido; levaria, sim, a beleza interior que experienciara em vida. Prestes a terminar a última palavra da última página, fechou os olhos. O corpo estremeceu uma última vez. Pousou o livro mágico na velha mesa, levantou-se — e dissolveu-se nos últimos raios de luz da tarde.

terça-feira, julho 23, 2019

Por vezes quando o tempo deixa, vou-me embora
Como se dissesse adeus a uma criança
Desse modo, em que não estou
Fecham-se os meus olhos em sonhos
E é tudo. E é nada.
Como um vazio que se abre para o mundo
Posso dizer que nasço de novo
Ou dizer que já não sou o mesmo que a vida esconde
Já não sou eu senão o sonho
Talvez seja uma melancolia
Mas que certeza eu tenho que não é um sonho?
Onde não quero dormir
E por amor
Talvez eu fosse

quarta-feira, junho 19, 2019

Durante a noite
Também há quem precise de um abraço
Embora a madrugada seja lenta
Também há nela quem não encontre a lua

segunda-feira, junho 17, 2019

Às vezes toco nas palavras tingidas no papel
Depois de batidas na máquina
Sinto-as impressas como se fossem mais que palavras
Sentimentos marcados
Sabes... às vezes certas letras rasgam o papel
Perfurando-o de um lado ao outro
Deixam pequenos buracos por onde a luz passa
Não sei já se é a emoção que trago comigo ao bater nas teclas
Se é apenas o mecanismo que bate no papel possa estar estragado
Eu acho que é ela, esta máquina velha que já me vai conhecendo
Deixa-se levar pelo ritmo do que sinto
Eu acho que ela se funde em mim
Não sei...
Tenho impressão que ela me conhece
Que de qualquer forma já me desvendou e sabe quem sou
Sabe o que penso
Sabe que tenho fome de ti
Pois o bater ritmado das letras
Revela-se morno, quente ou frio, forte
Lento e fraturado
Sim esta máquina tem qualquer coisa
Qualquer feitiço que me conhece

segunda-feira, abril 22, 2019

Os velhos

Naquele verão ela não veio, nem naquele nem nos outros que se seguiram. Passaram invernos e todas as estações do tempo, tantas que quase caíram em esquecimento. Terá sido um dia após o outro, uma semana após outra ou talvez ano após ano, até que as canções passaram de moda, como que, paradas num tempo que já não existia, mas as músicas deles não tinham parado, pelo menos para eles. Por vezes ele recordava no mesmo café de sempre, escutando com o ouvido da memória a canção Woman de John Lennon, outras subia-lhe o ritmo dos Rolling Stones, preenchiam-no por momentos com Wild Horses. Foi assim durante trinta e cinco anos. – Que fazes aqui? – Pergunta o velho sem medo. – Vim ver-te. – Responde ela. – Foda-se! Agora?! – Não me fales assim, nunca é tarde para reparar os nossos erros. Com os olhos postos no chão o velho diz: – Erros? Já não sei do que falas. Estás velha! Mas bonita. – Tu também, ainda tens os mesmos olhos. Vezes sem conta o velho ensaiava o discurso, falava sozinho como se ela ali estivesse para o ouvir. Sentava-se à janela e observava o tempo passar, imaginava as mãos dela nas suas e lembrava o toque que o deixava calmo. Passaram os Beatles, os The Doors e os Xutos, como se fossem composições numa estação de rádio ou a banda sonora da sua vida. Trim trim três da manhã, o telefone acorda o velho, meio sonâmbulo, atende com uma voz amarfanhada: - Estou? - João? És tu? - Sim! Quem fala? - Sou eu, a Maria. Não sabia se havia de rir ou chorar, nunca fizera tanto sentido a nota musical que marcara a presença do silêncio nos livros de música, silêncio, um velho e companheiro demasiado presente. - João estás aí? – Repetiu ela - Sim estou, é muito tarde. – A voz arrastada não lhe permitia falar. - Preciso de ti, o meu marido morreu há dois meses, sinto-me triste João, preciso de ti. – Disse ela como uma criança dentro de uma mulher. Ele desligou o telefone, pousou-o devagar na cabeceira, como se quisesse prolongar ainda mais a agonia de um ato de coragem. Adormecera como se não quisesse acordar. Tornara-se vulgar o cheiro a velho, ao fim de algum tempo até os espelhos deixaram de refletir as imagens dos dias que passam, talvez por causa disso já não se via ao espelho tantas vezes como os jovens imaturos. E as sopas, sempre as mesmas, deslavadas, o arroz, sempre o mesmo e também as mesmas batatas nos mesmos pratos brancos amarelados, assim como os mesmos sapatos e as camisas brancas ou azuis. Naquele dia todas as camisas pareciam diferentes e os sapatos quase novos e engraxados, até o café tinha um cheiro diferente, toda a solidão era um só pensamento alastrado durante dias e anos, impresso nas mãos dum corpo enrugado. A manhã era diferente, sobretudo cinzenta mas como se o sol brilhasse saiu à rua e a voz dela acompanhou-o, ouvia-a num murmúrio suave, confiscado entre o sonho e o sono. Fez o mesmo trajeto, passava à porta da oficina do António, o cheiro a gasolina e óleo fundia-se com o cheiro a pão da pastelaria ao lado. Ouvia Time is on my side dos Rolling Stones no seu leitor de mp3 que o neto lhe ofereceu num dos últimos aniversários, que ironia, ao mesmo tempo a voz dela no interior da sua cabeça, não sabia se estava contente por o marido ter batido as botas ou por valentia lhe ter desligado o telefone na cara, quebrando assim anos de solidão intensa. O velho estava diferente, parecia uma outra vida, apanhara o autocarro e queria almoçar peixe assado em Lisboa, sentar-se num restaurante qualquer, beber um copo de vinho e andar, andar por aí como andam os miúdos novos, como se não tivesse mais nada para fazer, como se os seus sapatos fossem novos e necessitassem de ser acomodados aos pés. Caminhava distraído pela cidade, os sons eram todos diferentes, os cheiros todos extraordinários e as paredes, essas já não se moviam contra ele num apertado gesto constrito, o coração já não fintava as ruas nem se mascarava perante os olhos quentes e frios das pessoas, em vez disso misturava-se com a vida dos que por ele passavam naquele dia, onde todos saíram à rua para lhe dar as boas vindas. De regresso a casa, mãos nos bolsos, a descontração constante de um homem apaixonado mas visivelmente cansado, reparou ao longe abeirada na sua porta, o semblante de uma mulher, ajeitou os óculos e olhou-a, a mesma pele branca e a mesma face rosada que deixava transparecer suavemente as veias do queixo, aquelas veias que ele tanto conhecia, que ele tanto beijara. O cabelo dourado, longo e liso caído sob os ombros. Ela esperava-o, como se aguardasse o infinito, atenta à rua como uma adolescente à espera de um beijo prolongadamente eterno, até que o viu. Numa camara lenta de sentidos os olhos cruzaram-se como se cruzam todos os olhos gémeos, sem preconceito fixando as testas, os narizes, as bocas, os lábios, as rugas, os corpos e o tempo num só momento. Não sei quanto tempo deixou o tempo que ficassem naquele estado de embriaguez, mas a língua do velho cujos discursos treinara durante anos vezes sem conta ficara presa, a escassos metros, escapando-lhe apenas da boca um soluço, seguido de outro, uma lágrima e depois outra, talvez as suficientes para levar as mãos à cara. Sim, os homens também choram e os velhos por vezes lacrimejam escondidos, como se a vergonha lhes ocupasse o lugar da humanidade, sem temor ela alcançava-o num caminhar desesperado, como se toda a eternidade dependesse daqueles dois velhos miúdos, e o abraço foi terno e apertado, cabia dentro dele todo o universo onde as faces se encontravam e as lágrimas se misturavam numa alquimia perfeita, as mãos trémulas percorriam as costas, os braços a cara e o calor era morno, humano, demasiado humano, fazendo crer que os velhos também amam, também sentem, também vivem. 

terça-feira, março 26, 2019

No preâmbulo da noite
Encontro-me sem me querer encontrar
Sob a ferocidade do mundo
Esgota-se a tristeza e faz-se noite
A poesia comunica
Como uma resposta kármica
Apresenta-se a ela própria
E aos outros que não querem vê-la
Mas quando não existe mais nada
Quando não há coisa nenhuma
Então surge o verbo
Como uma sentença premeditada
Como que inatingível e perverso
Numa alquimia pandemica em forma de palavra
Que representa esta comunicação vibrada
E então num breve diálogo secreto
Como se fechasse os olhos
E mesmo assim, toda a nitidez do mundo
Surgisse perante a negra e escura luz interior
Como se de um intervalo no tempo se tratasse
E a grotesca solidão de estar só se revelasse
Por entre a humanidade
Que é certamente mais gente do que eu
E eu certamente em mim mantenho as dimensões
Ainda que ilimitadas do universo
Como um eterno epílogo intransigente

terça-feira, fevereiro 05, 2019

Permito-me chorar
Na esfera do dia-a-dia
No descalabro da vida virtual
Permito-me chorar por alguém que não conheço
Por alguém que morreu
Por aquela menina assassinada pelo pai
Encontrada numa mala de um carro
Porquê? Pergunto-me!
E porque sou humano
Então eu choro sem resposta
E comovido porque não entendo
Abate-se em mim uma tristeza
Uma estranha tristeza do mundo
E as lágrimas não se contêm
Escorrem simplesmente
Deixo-as cair livres
E não me importo se me vêem ou não vêem
Se me falam ou vêem falar
Há lágrimas que não devem de ser caladas
Como pode o mundo ser assim cruel?
Uma escuridão que nos rodeia
Triste é quando morre alguém
Mas quando uma criança morre...
Se ao coração cabe o amor
Então à humanidade cabe saber se é capaz
Enquanto esperamos por lentas respostas
As lágrimas podem cair
Não é proibido chorar quando se é humano
Mas com toda a triste demência que me rodeia
Talvez eu não seja humano
Talvez eu seja então de outro planeta
Porque não cabe em mim tanta tristeza

quarta-feira, janeiro 30, 2019

O que faz de um poema um poema
Senão o ritmo da vida
Tal como a água flui
E o vento não descansa
Também o ritmo da alma não tem torpor
E a frase dita e não dita
Molda o poema
Refaz uma vida
Conserta o espírito
Reconstroi e alimenta
Quanto à eternidade
Descreve-a...
E engorda-se dela
Num poema, todos os corpos são palavras
Todas as formas são verbos
Ora nascem
Ora crescem
Morrem e ressuscitam
É o poema a ser um poema
No seu próprio ritmo
De braços abertos para abraçar
Sendo ele um arquitecto
Ele arquitecta-se
Refaz-se
O que é um poema sem ser um poema?
Uma criança sem ser uma criança?
Uma mulher sem ser uma mulher?
Um homem sem ser um homem?
O que somos senão poemas
Senão caminhos válidos para as palavras
Que cabem em nós
Que nos vivem
Que nos somam
Na metafisica da vida
Do ser humano
Do amor
O poema é nada mais do que a doutrina da essência das coisas

terça-feira, janeiro 29, 2019

Lá vai ele, onde não vai ninguém
Qual engate desengatado
Miserável
Numa corrida contra o tempo
Numa penetração vazia contra o nada
E a solidão lá está
Quieta num dia-a-dia cada vez mais novo
Mais recente
Mais só...
E lá vai ela também
Como que se buscasse algo
Talvez o infinito
Num dia em que o dia não passou da noite
E a noite foi o dia todo por ele inteiro
Engolido na solvência da madrugada
Da manhã, da noite
E eles encontram-se num vazio que é só deles
Numa transparência que é só deles
Numa dor que é só deles
Em uma solidão que não se vê
Mas que se sente
Que se impôe
E que morre dentro um do outro

quarta-feira, janeiro 09, 2019

Matei um homem
Atei-lhe os pés
As mãos
Tapei-lhe a cara
E sufoquei-o
Com o manto dos objetos
Com a vida
Esqueci-me dele no tempo
Diria que o matei bem morto
Depois engoli-o e escondi-lhe a alma
E o tempo passou
O tempo passa sempre
Não pára...
Nunca pára
Quando me recordo da cara dele
Sorriso eterno
Quando me lembro dele, era apenas um cego que queria ver
Um miúdo de vinte anos faminto de vida
E por vezes na vida não se vive
Sobrevive-se...
Complica-se...
Morre-se lentamente, como quem se mata
Num suicídio agonizante
Morre lentamente quem não faz o que ama
Quem não chora
Quem não ri
Matei sim...
Quem sabe asfixiei um sonho de criança?
Mas não fui eu!
Não!
Recuso-me a ser um criminoso, um suicida...
Pois no mundo há sempre quem culpar
Para mim, foi a sempre alegre e cobarde sociedade
Fétida e imoral...
E agora o medo...
O medo de morrer duas vezes
Um medo que se assume em contrabando
Que se move fugaz
Que se autoproclama
Então eu penso: Será que matei aquele homem?
Será que me enterrei
Será que...
Será? - Pergunta o menino.
Aquele menino homem, observador, que me acompanha
E eu?
E eu? Que respondo?
Eu não sei responder