quarta-feira, dezembro 31, 2025
As pessoas falam mais baixo com o calendário
Talvez como se fosse Deus
“No próximo ano é que vou mudar de vida”
“Vou fazer dieta e comer melhor”
“Vou ser uma pessoa melhor”
Claro que sim
O tipo do café continua a tirar cafés com a mesma cara fodida
A mulher da limpeza continua a apanhar os cinzeiros como se fossem pecados
O chefe continua a mandar mails às 18h59
E tu continuas a acordar cansado a meio da noite
Com a sensação de que alguma coisa ficou por viver
E não sabes o quê
Lá fora vão-se enchendo copos de espumante barato
Vestem-se lantejoulas por cima de velhas frustrações
As pessoas contam regressivamente...
Como se 10, 9, 8… fosse dinamite pronto a rebentar com a merda do passado
Mas quando o fogo de artifício acaba
Só ficas tu
O teu corpo usado
O frigorífico meio vazio
A conta bancária meia morta
E a mesma saudade de coisas que nem sabes nomear
Não vai aparecer ninguém à meia-noite
Para te salvar da tua própria cabeça
Não vai cair do céu um novo contrato
Um amor novo
Um cérebro novo
No máximo
Se tiveres sorte
Um abraço decente
Um copo que não esteja partido
Uma gargalhada honesta
Daquelas que não ficam bem na fotografia
A verdade é esta:
O novo ano não existe
É só o mesmo cão velho
Com um número novo na coleira
O que pode ser novo
Se quiseres mesmo
Não é o ano
És tu...
Não aquela versão iluminada dos cursos motivacionais
Mas o tipo que decide num dia qualquer de janeiro
Que já não se volta a encolher tanto
Já não diz sim quando quer dizer não
Já não abre a porta a quem entra só para foder a tua paz
E depois vai-se embora com o tapete
Talvez este ano
Não consigas ser feliz
Que palavra de merda, “feliz”
Mas quem sabe
Consigas ser um bocadinho menos cobarde contigo mesmo
Tomar um café sem te odiares tanto
Dizer “não quero”
Sem justificar tudo com três páginas
Talvez este ano
Não encontres o amor da tua vida
Mas consigas amar melhor os miúdos
Ou o teu silêncio
Ou o teu corpo cansado
Sem o tratar sempre como lixo
No fim do ano
Quando estiverem outra vez a gritar
“Feliz ano novo!”
Tu faz o seguinte:
Agarra num papel qualquer
Escreve só uma coisa
Uma pequenina
Do tipo:
“Não vou mentir tanto a mim mesmo.”
Dobra o papel
Mete no bolso
E vai viver
Sem arcos de luz
Sem preces ao calendário
Sem grandes merdas
Só tu
O velho ano disfarçado de novo
Um coração amassado
E uma teimosia qualquer em continuar aqui
Não é bonito
Não é épico
Mas às vezes
É o suficiente.
segunda-feira, dezembro 22, 2025
Gosto do cheiro do papel. É uma coisa subtil, quase invisível, mas está lá. Tem dias que cheira a antigo, a tempo, a algo que não tem pressa. Escrever assim ainda me parece um ritual, não uma tarefa. Hoje em dia, com os computadores, tudo se tornou mais fácil, mais rápido, menos formal e também mais vulgar. As palavras saem limpas demais, direitas demais, como se não tivessem passado pelo corpo, como se não saissem cá de dentro.
Mas a caneta de aparo é outra história. As fountain pen. Essas não perdoam distrações. Obrigam-me a abrandar, a sentir o papel, a aceitar o erro. A tinta escorre, falha, mancha. Fica nos dedos... Isso importa. Quando acordo de manhã e ainda vejo aquelas marcas azuis ou pretas na pele, lembro-me que estive em algum lugar durante a noite. Não foi só insónia. Não foi só tempo perdido. Estive lá dentro, a mexer em coisas que não sei explicar.
A máquina de escrever é a mesma coisa. Um ritual diferente, mais barulhento. Ultimamente não tenho escrito nela, mas continua a ser um lugar quase romântico só meu. Não romântico de filmes, mas romântico no sentido de refúgio. Aquele barulho seco das teclas, o martelar constante, o sino no fim da linha. Não dá para escrever em silêncio, e talvez seja por isso que gosto. O barulho ocupa o espaço onde a cabeça costuma fazer demasiada conversa.
Na máquina não há correcções bonitas. Há erros riscados, papel amassado, folhas de lado. Há cansaço nos dedos e nas ideias. Mas há presença. Cada letra é um gesto físico. Cada frase pesa qualquer coisa.
No fundo, seja com a caneta de aparo ou com a máquina de escrever, o que eu procuro é o mesmo, um sítio onde escrever que ainda deixa marcas. No papel, nos dedos, em mim. Um sítio onde o que escrevo não desaparece com uma combinação de teclas no computador. Onde o barulho, a tinta e o cheiro me lembram que estive acordado, vivo, e que não deixei a noite passar em branco.
sexta-feira, dezembro 12, 2025
Entre uma volta e outra
Há sempre alguém que almoça de pé ao balcão
Como um coração encostado a uma vitrine
A vida a acontecer là fora
O mundo a seguir em frente
Há pessoas assim
Atravessam-se no dia
Como quem atravessa na rua um sinal vermelho
Pessoas apressadas e simples
Passam por mim como dias da semana
Carros, notícias, contas, ruídos
Merdas
Talvez viver seja isto
Aceitar que a vida é apressada e simples
Tornar-se mais alguma coisa
Abrigar as tempestades por dentro
quarta-feira, dezembro 03, 2025
Acho que coloquei o dia às costas
Como todos os dias mas com mais cuidado
E saí à rua
Não saí com pressa de chegar a algum lugar
Mas saí para não deixar que a minha alma
Chegasse atrasada à vida
Dei conta que às vezes me atraso
E tenho medo de me perder
Medo de me sentir cansado
É que o mundo lá fora corre
Com pressa de chegar a lado nenhum
E deus por vezes pergunta
Então? Quando é que voltas para casa?
E eu finjo que não ouço
Arrumo a alma em prateleiras tortas
Digo-lhe que ainda tenho coisas para fazer
Que há contas para pagar
E medos para adiar
Mas no fundo sei
Que cada vez que o sol se vai
É um bilhete que se rasga
Uma partida que adio
Talvez um dia responda:
Deixa-me só acabar este abraço
Este café
Um poema
E volto
terça-feira, julho 22, 2025
O Universo revela-se
Como nas histórias perdidas entre a sombra e a luz
Aquele mundo encantado onde as folhas dançam
Onde os poemas ecoam
Por entre as ruas silenciosas, onde o vento ainda sussurra o teu nome
E eu pergunto onde está o teu abraço ?
O calor da tua voz que já não toca o meu ouvido ?
O perfume suave que ficou no ar ?
Como uma lembrança que não sabe partir
Ah, como as horas se arrastam sem ti
Em cada esquina que viro, cada sombra que encontro
Carrega a tua ausência como uma lágrima seca
E as estrelas...
Que em silêncio testemunham a minha saudade
Num grito mudo que ecoa em todos os cantos da minha alma