quinta-feira, fevereiro 26, 2026

nunca deixei
de a olhar
sinceramente ela não prometia nada
nem salvação
nem futuro
só estava lá
eu, cá em baixo
uma caneta na mão
ou uma máquina de escrever
o computador
o corpo gasto
depois o papel
mas as mãos 
a cheirar aos mesmos dias usados
e a noite a cair devagar
a lua nunca me pediu
nem julgou
não explica
ah... mas as pessoas sim
mesmo sabendo
que nunca vou pisar a lua
mesmo assim
ela ficou ali
não como um destino
mas a eterna confidente
nunca me pediu nada
não tentou salvar-me
não fez perguntas
limitou-se a ouvir
as noites mal dormidas
as frases tortas
os dias gastos
eu sempre falei pouco
ela também
e isso bastava para nós

terça-feira, fevereiro 24, 2026

apesar do medo constante
sobrevivi
não foi coragem 
nem esperança
não
foi teimosia
não me apaguei
e às vezes
isso 
era o suficiente
tinha de chegar apenas
é isso

ainda não era a tarde certa
apesar do sol entrar pelas jantelas 
as sombras reproduziam-se  
num chão de madeira cansado
quando olhava
ofuscava-me
a luz batia-me na cara
como quem diz
vive
isto é o que sobrou
fechei os olhos
não para dormir
mas para sentir
aqueles dias no dojo
em que a luz 
era a melhor forma
de verdade
e ali
a verdade
não precisava de palavras

quinta-feira, fevereiro 19, 2026

jornais velhos e antigos
papeis amarelados 
mortos com vidas passadas
criticismo 
uma pilha de jornais
copos vazios e pontas de cigarro no chão
ouve-se ao longe um miúdo que grita pela mãe
ela responde
o beco cheira a mijo
uma velha vem à janela com medo
um medo de uma morte lenta
não há nada aqui para ninguém

tenho saudades dos velhos telefones
aqueles que levantava o auscultador
e o mundo ficava suspenso
tinha de rodar a roda no centro
para marcar um numero de cada vez
como quem ainda pensava
ás vezes a meio do numero, já não queria falar com ninguém
desligava 
percebia-se a verdade
era simples mas não era estúpido
agora essas coisas 
tornaram-se simples demais
banais demais
as coisas perderam peso
as palavras também
e com essas banalidades vieram as redes sociais
outra merda sem jeito em que as pessoas
gritam palavras vazias 
para outro grupo de pessoas ainda mais vazio
uma latrina iluminada
ninguém escuta
ninguém sente
todos falam
mas esses telefones
parecia que ouvia o silêncio a julgar-te
era um compromisso ligar a alguém
não havia dedos nervosos
nem likes 
nem essa masturbação digital
agora tudo é fácil demais
as pessoas falam sem pensar
amam sem sentir
fodem sem se tocar
a verdade é que ninguém quer silêncio
ninguém aguenta estar sozinho
todos berram
para não ouvir o vazio que trazem lá dentro
chamam a isso progresso
eu chamo-lhe suicidio lento

quarta-feira, fevereiro 18, 2026

se bebesse
era impossivel ser eu 
um copo de vinho 
mais um copo de vinho
não sei quanto tempo iria durar
mas vejo-me a bater palavras na máquina de escrever
cigarro após folha
folha após cigarro
cerveja ou vinho
uma moda da altura
revejo-me em sombras
talvez uma vida antiga
sempre um copo a meio
uma frase a meio
uma desculpa a meio
mas se bebesse
talvez fosse mais fácil
mentir-me
fico sóbrio
a assistir
à lenta decomposição
do que chamam a vida normal 

terça-feira, fevereiro 10, 2026

há um momento 
em que percebes que mudaste
dás conta que já não tens força
para fingir
em que entendes que falhaste
ou cresceste
da mesma forma quando deixas cair um copo no chão
sabes aquele momento 
em que te escorrega da mão
não é o barulho a partir-se no chão
é o segundo antes
aquele instante miserável
em que sabes
que não o vais apanhar
pode ser numa segunda-feira de merda
num sábado gasto, num dia qualquer
apenas sabes que no dia seguinte
nada encaixa
a cama é a mesma
o espelho não
e nada vai ser igual ao que era antes
esse momento chega lento
mas quando te apercebes 
o copo não cai de repente
ele vai-se soltando
gota a gota
erro a erro
silêncio a silêncio
durante dias
semanas
meses
até que os dedos desistem
quando parte no chão
não gritas
não choras
olhas
e percebes
que já andavas a quebrar
há muito tempo