por entre todas as coisas
que fiz e não fiz
as que mais tenho saudades
são as que não acabei
como um sonho
de que acordas cedo demais
com a boca ainda húmida
de outra vida
há nelas uma luz suspensa
um quase...
não são muitas
são suficientes
para me acordarem
às três da manhã
talvez se as tivesse terminado
teriam morrido
como morrem as cartas
quando finalmente são enviadas
os emails
os sms
assim ficaram abertas
como que se respirassem
como as janelas viradas para o mar
que nunca atravessei
mas eu volto a elas
com as mãos gastas
a mesma teimosia
a lembrança
há coisas
que só continuam belas
quando não se cumprem
e talvez
o que me dói
não seja não as ter acabado
mas saber que nelas
ainda estou lá inteiro
terça-feira, março 03, 2026
quinta-feira, fevereiro 26, 2026
nunca deixei
de a olhar
sinceramente ela não prometia nada
nem salvação
nem futuro
só estava lá
eu, cá em baixo
uma caneta na mão
ou uma máquina de escrever
o computador
o corpo gasto
depois o papel
mas as mãos
a cheirar aos mesmos dias usados
e a noite a cair devagar
a lua nunca me pediu
nem julgou
não explica
ah... mas as pessoas sim
mesmo sabendo
que nunca vou pisar a lua
mesmo assim
ela ficou ali
não como um destino
mas a eterna confidente
nunca me pediu nada
não tentou salvar-me
não fez perguntas
limitou-se a ouvir
as noites mal dormidas
as frases tortas
os dias gastos
eu sempre falei pouco
ela também
e isso bastava para nós
terça-feira, fevereiro 24, 2026
ainda não era a tarde certa
apesar do sol entrar pelas jantelas
as sombras reproduziam-se
num chão de madeira cansado
quando olhava
ofuscava-me
a luz batia-me na cara
como quem diz
vive
isto é o que sobrou
fechei os olhos
não para dormir
mas para sentir
aqueles dias no dojo
em que a luz
era a melhor forma
de verdade
e ali
a verdade
não precisava de palavras
quinta-feira, fevereiro 19, 2026
jornais velhos e antigos
papeis amarelados
mortos com vidas passadas
criticismo
uma pilha de jornais
copos vazios e pontas de cigarro no chão
ouve-se ao longe um miúdo que grita pela mãe
ela responde
o beco cheira a mijo
uma velha vem à janela com medo
um medo de uma morte lenta
não há nada aqui para ninguém
tenho saudades dos velhos telefones
aqueles que levantava o auscultador
e o mundo ficava suspenso
tinha de rodar a roda no centro
para marcar um numero de cada vez
como quem ainda pensava
ás vezes a meio do numero, já não queria falar com ninguém
desligava
percebia-se a verdade
era simples mas não era estúpido
agora essas coisas
tornaram-se simples demais
banais demais
as coisas perderam peso
as palavras também
e com essas banalidades vieram as redes sociais
outra merda sem jeito em que as pessoas
gritam palavras vazias
para outro grupo de pessoas ainda mais vazio
uma latrina iluminada
ninguém escuta
ninguém sente
todos falam
mas esses telefones
parecia que ouvia o silêncio a julgar-te
era um compromisso ligar a alguém
não havia dedos nervosos
nem likes
nem essa masturbação digital
agora tudo é fácil demais
as pessoas falam sem pensar
amam sem sentir
fodem sem se tocar
a verdade é que ninguém quer silêncio
ninguém aguenta estar sozinho
todos berram
para não ouvir o vazio que trazem lá dentro
chamam a isso progresso
eu chamo-lhe suicidio lento
quarta-feira, fevereiro 18, 2026
se bebesse
era impossivel ser eu
um copo de vinho
mais um copo de vinho
não sei quanto tempo iria durar
mas vejo-me a bater palavras na máquina de escrever
cigarro após folha
folha após cigarro
cerveja ou vinho
uma moda da altura
revejo-me em sombras
talvez uma vida antiga
sempre um copo a meio
uma frase a meio
uma desculpa a meio
mas se bebesse
talvez fosse mais fácil
mentir-me
fico sóbrio
a assistir
à lenta decomposição
do que chamam a vida normal
terça-feira, fevereiro 10, 2026
em que percebes que mudaste
dás conta que já não tens força
para fingir
em que entendes que falhaste
ou cresceste
da mesma forma quando deixas cair um copo no chão
sabes aquele momento
em que te escorrega da mão
não é o barulho a partir-se no chão
é o segundo antes
aquele instante miserável
em que sabes
que não o vais apanhar
pode ser numa segunda-feira de merda
num sábado gasto, num dia qualquer
apenas sabes que no dia seguinte
nada encaixa
a cama é a mesma
o espelho não
e nada vai ser igual ao que era antes
esse momento chega lento
mas quando te apercebes
o copo não cai de repente
ele vai-se soltando
gota a gota
erro a erro
silêncio a silêncio
durante dias
semanas
meses
até que os dedos desistem
quando parte no chão
não gritas
não choras
olhas
e percebes
que já andavas a quebrar
há muito tempo
domingo, janeiro 04, 2026
Em 1995
Lisboa cheirava a gasóleo
Cigarros baratos
E a qualquer coisa podre que vinha do tejo
Quando a maré estava baixa
Eu era um puto
Com ténis cansados
E sonhos grandes demais para o bolso das calças
Andava de comboio com bilhete
A fingir que não via o pica
Como se isso já fosse um treino para a vida adulta
O Rossio era um sítio sério
Cheio de homens cansados
Mulheres com sacos de plástico
E putas discretas
Que sabiam mais sobre o mundo
Do que todos os professores juntos
Os velhos ainda jogavam à sueca
Com copos de bagaço
E histórias da tropa
Poucos falavam de sentimentos
Isso era coisa de ricos
Ou de malucos
Eu aprendia tudo
Como se aprende a levar murros
Devagar
À custa de erros
E com vergonha incluída
Havia lojas de música na rua
Cassettes piratas
Guns N’ Roses
Nirvana
Metallica
Xutos
Tudo misturado
Como se o mundo estivesse a ensaiar
Qual seria o próximo desastre
As raparigas fumavam às escondidas
E falavam de fugir
Eu queria conhece-las, beijá-las
Mas era mais timido
Mal sabia falar
Por isso escrevia merdas num caderno
Como quem confessa pequenos crimes
A minha mãe
Era o chão firme
A única voz estável
Num mundo que abanava
Apoiava-me em silêncio
Como quem sabe que amar um filho
Às vezes é só não o deixar cair
O meu pai quando o via
Bebia demais
Não foi um vilão
Foi só ausente
Que é outra forma de ferida
Mais difícil de explicar
Aprendi cedo
Que as famílias
Também se partem
E que ninguém te ensina como lidar com essa merda
Acho que os amigos e a rua trataram do resto
Os adultos fingiam saber o que faziam
E eu percebia que ninguém sabe porra nenhuma
Só finge melhor com a idade
Acho que foi por isso que fui para o karate uns anos antes
Não para ser duro
Mas para não ser fraco
Num mundo que não perdoava ninguém
Naquele tempo o dojo cheirava a suor
A respeito
E a regras simples
Ali se caías
Levantavas-te
Não havia conversa
Aprendi a conter a raiva
A respirar antes do golpe
A perceber
Que perder o controlo é sempre derrota
Depois vinha Lisboa outra vez
O comboio
Feira da Ladra
Raparigas a fumar
Com olhos de fuga
E música pirata
A tentar dar sentido às horas
Em 1995
Lisboa não prometia futuro
Prometia resistência
Aprendi cedo
que sobreviver
já era uma forma de vitória
Poucos falavam de yoga ou meditação em 95
Muito menos para putos
Mas eu precisava
De um lugar
Onde o corpo baixasse a guarda
E a cabeça
Não tivesse de fingir
No karaté
Aprendi a enfrentar
Na meditação
Aprendi a ficar
Uma ensinou-me a sobreviver à rua
A outra a sobreviver a mim
Cresci assim
Hoje
Quando volto às mesmas ruas
O puto ainda anda comigo
Menos tenso
Mais consciente
Aprendi que a força sem consciência
É só herança mal resolvida
E que sobreviver em Lisboa não era ser duro
era saber quando fechar os punhos
e quando os abrir.
Acordei a pensar em 1995, o que é sempre um mau sinal. Dizem que quando a cabeça vai buscar anos específicos é porque alguma coisa antiga voltou a doer. Fiquei deitado uns minutos a olhar para o teto, levantei-me, deitei-me novamente a tentar perceber como é que um puto do Cacém aprendeu tão cedo a fechar os punhos e a respirar ao mesmo tempo.
Lembro-me do karate não como vitória, mas como contenção. Não era para bater em ninguém, era só para não rebentar por dentro. A meditação veio depois, quase em segredo, como quem descobre um esconderijo dentro do próprio corpo. Ninguém falava disso, mas eu precisava de um sítio onde a raiva baixasse de volume.
A minha mãe aguentava o barco como podia. Às vezes é só isso que precisamos, que o barco continue a não se afundar. Ainda acordo de vez em quando a pensar nisto, sobretudo quando a casa está em silêncio e os miúdos dormem.
Percebo agora que muita coisa do que sou nasceu ali na rua, no dojo, no meu quarto a respirar devagar. Não virei santo, nem exemplo de nada. Virei só um homem, pai.
Escrever isto não muda 1995. Ajuda-me a ter sono e talvez a não repetir o que veio de lá. Para esta madrugada, já chega.