Em 1995
Lisboa cheirava a gasóleo
Cigarros baratos
E a qualquer coisa podre que vinha do tejo
Quando a maré estava baixa
Eu era um puto
Com ténis cansados
E sonhos grandes demais para o bolso das calças
Andava de comboio com bilhete
A fingir que não via o pica
Como se isso já fosse um treino para a vida adulta
O Rossio era um sítio sério
Cheio de homens cansados
Mulheres com sacos de plástico
E putas discretas
Que sabiam mais sobre o mundo
Do que todos os professores juntos
Os velhos ainda jogavam à sueca
Com copos de bagaço
E histórias da tropa
Poucos falavam de sentimentos
Isso era coisa de ricos
Ou de malucos
Eu aprendia tudo
Como se aprende a levar murros
Devagar
À custa de erros
E com vergonha incluída
Havia lojas de música na rua
Cassettes piratas
Guns N’ Roses
Nirvana
Metallica
Xutos
Tudo misturado
Como se o mundo estivesse a ensaiar
Qual seria o próximo desastre
As raparigas fumavam às escondidas
E falavam de fugir
Eu queria conhece-las, beijá-las
Mas era mais timido
Mal sabia falar
Por isso escrevia merdas num caderno
Como quem confessa pequenos crimes
A minha mãe
Era o chão firme
A única voz estável
Num mundo que abanava
Apoiava-me em silêncio
Como quem sabe que amar um filho
Às vezes é só não o deixar cair
O meu pai quando o via
Bebia demais
Não foi um vilão
Foi só ausente
Que é outra forma de ferida
Mais difícil de explicar
Aprendi cedo
Que as famílias
Também se partem
E que ninguém te ensina como lidar com essa merda
Acho que os amigos e a rua trataram do resto
Os adultos fingiam saber o que faziam
E eu percebia que ninguém sabe porra nenhuma
Só finge melhor com a idade
Acho que foi por isso que fui para o karate uns anos antes
Não para ser duro
Mas para não ser fraco
Num mundo que não perdoava ninguém
Naquele tempo o dojo cheirava a suor
A respeito
E a regras simples
Ali se caías
Levantavas-te
Não havia conversa
Aprendi a conter a raiva
A respirar antes do golpe
A perceber
Que perder o controlo é sempre derrota
Depois vinha Lisboa outra vez
O comboio
Feira da Ladra
Raparigas a fumar
Com olhos de fuga
E música pirata
A tentar dar sentido às horas
Em 1995
Lisboa não prometia futuro
Prometia resistência
Aprendi cedo
que sobreviver
já era uma forma de vitória
Poucos falavam de yoga ou meditação em 95
Muito menos para putos
Mas eu precisava
De um lugar
Onde o corpo baixasse a guarda
E a cabeça
Não tivesse de fingir
No karaté
Aprendi a enfrentar
Na meditação
Aprendi a ficar
Uma ensinou-me a sobreviver à rua
A outra a sobreviver a mim
Cresci assim
Hoje
Quando volto às mesmas ruas
O puto ainda anda comigo
Menos tenso
Mais consciente
Aprendi que a força sem consciência
É só herança mal resolvida
E que sobreviver em Lisboa não era ser duro
era saber quando fechar os punhos
e quando os abrir.
domingo, janeiro 04, 2026
Acordei a pensar em 1995, o que é sempre um mau sinal. Dizem que quando a cabeça vai buscar anos específicos é porque alguma coisa antiga voltou a doer. Fiquei deitado uns minutos a olhar para o teto, levantei-me, deitei-me novamente a tentar perceber como é que um puto do Cacém aprendeu tão cedo a fechar os punhos e a respirar ao mesmo tempo.
Lembro-me do karate não como vitória, mas como contenção. Não era para bater em ninguém, era só para não rebentar por dentro. A meditação veio depois, quase em segredo, como quem descobre um esconderijo dentro do próprio corpo. Ninguém falava disso, mas eu precisava de um sítio onde a raiva baixasse de volume.
A minha mãe aguentava o barco como podia. Às vezes é só isso que precisamos, que o barco continue a não se afundar. Ainda acordo de vez em quando a pensar nisto, sobretudo quando a casa está em silêncio e os miúdos dormem.
Percebo agora que muita coisa do que sou nasceu ali na rua, no dojo, no meu quarto a respirar devagar. Não virei santo, nem exemplo de nada. Virei só um homem, pai.
Escrever isto não muda 1995. Ajuda-me a ter sono e talvez a não repetir o que veio de lá. Para esta madrugada, já chega.
quarta-feira, dezembro 31, 2025
As pessoas falam mais baixo com o calendário
Talvez como se fosse Deus
“No próximo ano é que vou mudar de vida”
“Vou fazer dieta e comer melhor”
“Vou ser uma pessoa melhor”
Claro que sim
O tipo do café continua a tirar cafés com a mesma cara fodida
A mulher da limpeza continua a apanhar os cinzeiros como se fossem pecados
O chefe continua a mandar mails às 18h59
E tu continuas a acordar cansado a meio da noite
Com a sensação de que alguma coisa ficou por viver
E não sabes o quê
Lá fora vão-se enchendo copos de espumante barato
Vestem-se lantejoulas por cima de velhas frustrações
As pessoas contam regressivamente...
Como se 10, 9, 8… fosse dinamite pronto a rebentar com a merda do passado
Mas quando o fogo de artifício acaba
Só ficas tu
O teu corpo usado
O frigorífico meio vazio
A conta bancária meia morta
E a mesma saudade de coisas que nem sabes nomear
Não vai aparecer ninguém à meia-noite
Para te salvar da tua própria cabeça
Não vai cair do céu um novo contrato
Um amor novo
Um cérebro novo
No máximo
Se tiveres sorte
Um abraço decente
Um copo que não esteja partido
Uma gargalhada honesta
Daquelas que não ficam bem na fotografia
A verdade é esta:
O novo ano não existe
É só o mesmo cão velho
Com um número novo na coleira
O que pode ser novo
Se quiseres mesmo
Não é o ano
És tu...
Não aquela versão iluminada dos cursos motivacionais
Mas o tipo que decide num dia qualquer de janeiro
Que já não se volta a encolher tanto
Já não diz sim quando quer dizer não
Já não abre a porta a quem entra só para foder a tua paz
E depois vai-se embora com o tapete
Talvez este ano
Não consigas ser feliz
Que palavra de merda, “feliz”
Mas quem sabe
Consigas ser um bocadinho menos cobarde contigo mesmo
Tomar um café sem te odiares tanto
Dizer “não quero”
Sem justificar tudo com três páginas
Talvez este ano
Não encontres o amor da tua vida
Mas consigas amar melhor os miúdos
Ou o teu silêncio
Ou o teu corpo cansado
Sem o tratar sempre como lixo
No fim do ano
Quando estiverem outra vez a gritar
“Feliz ano novo!”
Tu faz o seguinte:
Agarra num papel qualquer
Escreve só uma coisa
Uma pequenina
Do tipo:
“Não vou mentir tanto a mim mesmo.”
Dobra o papel
Mete no bolso
E vai viver
Sem arcos de luz
Sem preces ao calendário
Sem grandes merdas
Só tu
O velho ano disfarçado de novo
Um coração amassado
E uma teimosia qualquer em continuar aqui
Não é bonito
Não é épico
Mas às vezes
É o suficiente.
segunda-feira, dezembro 22, 2025
Gosto do cheiro do papel. É uma coisa subtil, quase invisível, mas está lá. Tem dias que cheira a antigo, a tempo, a algo que não tem pressa. Escrever assim ainda me parece um ritual, não uma tarefa. Hoje em dia, com os computadores, tudo se tornou mais fácil, mais rápido, menos formal e também mais vulgar. As palavras saem limpas demais, direitas demais, como se não tivessem passado pelo corpo, como se não saissem cá de dentro.
Mas a caneta de aparo é outra história. As fountain pen. Essas não perdoam distrações. Obrigam-me a abrandar, a sentir o papel, a aceitar o erro. A tinta escorre, falha, mancha. Fica nos dedos... Isso importa. Quando acordo de manhã e ainda vejo aquelas marcas azuis ou pretas na pele, lembro-me que estive em algum lugar durante a noite. Não foi só insónia. Não foi só tempo perdido. Estive lá dentro, a mexer em coisas que não sei explicar.
A máquina de escrever é a mesma coisa. Um ritual diferente, mais barulhento. Ultimamente não tenho escrito nela, mas continua a ser um lugar quase romântico só meu. Não romântico de filmes, mas romântico no sentido de refúgio. Aquele barulho seco das teclas, o martelar constante, o sino no fim da linha. Não dá para escrever em silêncio, e talvez seja por isso que gosto. O barulho ocupa o espaço onde a cabeça costuma fazer demasiada conversa.
Na máquina não há correcções bonitas. Há erros riscados, papel amassado, folhas de lado. Há cansaço nos dedos e nas ideias. Mas há presença. Cada letra é um gesto físico. Cada frase pesa qualquer coisa.
No fundo, seja com a caneta de aparo ou com a máquina de escrever, o que eu procuro é o mesmo, um sítio onde escrever que ainda deixa marcas. No papel, nos dedos, em mim. Um sítio onde o que escrevo não desaparece com uma combinação de teclas no computador. Onde o barulho, a tinta e o cheiro me lembram que estive acordado, vivo, e que não deixei a noite passar em branco.
sexta-feira, dezembro 12, 2025
Entre uma volta e outra
Há sempre alguém que almoça de pé ao balcão
Como um coração encostado a uma vitrine
A vida a acontecer là fora
O mundo a seguir em frente
Há pessoas assim
Atravessam-se no dia
Como quem atravessa na rua um sinal vermelho
Pessoas apressadas e simples
Passam por mim como dias da semana
Carros, notícias, contas, ruídos
Merdas
Talvez viver seja isto
Aceitar que a vida é apressada e simples
Tornar-se mais alguma coisa
Abrigar as tempestades por dentro
quarta-feira, dezembro 03, 2025
Acho que coloquei o dia às costas
Como todos os dias mas com mais cuidado
E saí à rua
Não saí com pressa de chegar a algum lugar
Mas saí para não deixar que a minha alma
Chegasse atrasada à vida
Dei conta que às vezes me atraso
E tenho medo de me perder
Medo de me sentir cansado
É que o mundo lá fora corre
Com pressa de chegar a lado nenhum
E deus por vezes pergunta
Então? Quando é que voltas para casa?
E eu finjo que não ouço
Arrumo a alma em prateleiras tortas
Digo-lhe que ainda tenho coisas para fazer
Que há contas para pagar
E medos para adiar
Mas no fundo sei
Que cada vez que o sol se vai
É um bilhete que se rasga
Uma partida que adio
Talvez um dia responda:
Deixa-me só acabar este abraço
Este café
Um poema
E volto
terça-feira, julho 22, 2025
O Universo revela-se
Como nas histórias perdidas entre a sombra e a luz
Aquele mundo encantado onde as folhas dançam
Onde os poemas ecoam
Por entre as ruas silenciosas, onde o vento ainda sussurra o teu nome
E eu pergunto onde está o teu abraço ?
O calor da tua voz que já não toca o meu ouvido ?
O perfume suave que ficou no ar ?
Como uma lembrança que não sabe partir
Ah, como as horas se arrastam sem ti
Em cada esquina que viro, cada sombra que encontro
Carrega a tua ausência como uma lágrima seca
E as estrelas...
Que em silêncio testemunham a minha saudade
Num grito mudo que ecoa em todos os cantos da minha alma
segunda-feira, novembro 04, 2024
nos lugares onde a luz não chega
espera uma respiração silenciosa
presente no espaço entre os meus pensamentos
Sigo então os limites da memória
tal como os dedos numa cicatriz
vou tocando os momentos guardados
nos recônditos ocultos do meu coração
Mas...
uma maré incessante de vozes
mas dentro deste silêncio
Escrevo não para ser ouvido
mas para sentir o peso do alivio
para nomear as sombras
e deixá-las fluir, livres, na noite
segunda-feira, maio 16, 2022
terça-feira, abril 26, 2022
terça-feira, fevereiro 01, 2022
sexta-feira, setembro 17, 2021
quarta-feira, julho 21, 2021
sexta-feira, julho 16, 2021
terça-feira, julho 13, 2021
quarta-feira, junho 30, 2021
Tempo
Há muitos, muitos anos, talvez até tantos quanto poderemos pensar, houve um fantasma, era um homem que pela sua morte se tornou numa alma penada, não é que tivesse penas de pato, ganso ou até de avestruz. Não, nada disso, mas de facto não era um qualquer fantasma, nem sequer era assustador ou assustava alguém como é suposto os fantasmas fazerem, pelo menos os que eu conheço.
Certo dia, depois de fazer todas as coisas que os fantasmas fazem pela manhã, ele deambulava por onde passeava todos os dias, à mesma hora e para seu espanto reparou que o seu relógio estava parado. Algo que ele nunca tinha dado conta porque raramente se dava conta do tempo. A coisa preocupou-o tanto que naquele momento ele parou, ali mesmo no meio da rua e ficou a olhar atentamente para o ponteiro que não se movia, que parecia estar morto como ele. Pensou para si mesmo “Mas que raio! Querem ver que o meu relógio morreu também?” e começou a correr preocupado a tentar encontrar um relojoeiro. De facto ali perto, havia há muitos anos uma relojoaria, uma loja onde fabricavam e arranjavam os mais complexos relógios. Sem saber as horas só pensava no seu relógio parado, andou e andou até que encontrou finalmente uma loja com uma grande porta de madeira onde se podia ler em letras bem grandes “O tempo não para, e os relógios também não devem parar.”. – Que ironia – Pensou. Assim que chegou ficou parado à porta, o seu inexistente coração batia como um relógio apressado, infelizmente não conseguiu entrar na loja, um pequeno cartaz anunciava que fechara para férias. Cabisbaixo, o fantasma olhava para o seu relógio fixamente e pensava se alguma vez mais iria ver os seus ponteiros a andar novamente. Quando se deu conta, era de noite e apercebeu-se uma vez mais que o seu relógio tinha as mesmas horas, as horas em que tinha parado, precisamente seis e trinta e quatro. Já nem ele sabia que horas eram, perdera a noção do tempo, mesmo em vida as horas para ele pareciam nunca passar, mas, naquela noite, era uma noite diferente, o seu relógio tinha parado e com ele o tempo, como que petrificado, isolado de qualquer atividade numerológica. Aquele fantasma sentia-se verdadeiramente deprimido.
Sentou-se num banco de jardim ali perto e decidiu esperar que a grande porta de madeira se abrisse. Passou um dia, dois dias, três dias, uma semana, duas semanas e nada. - Mas que raio! Quem será que tira tantos dias de férias? – Pensou indignado. Ao pensar isto, reparou num pequeno homem que caminhava em direção à porta e pensou: “Finalmente alguém para me abrir a porta e arranjar o meu relógio.” Levantou-se e saiu a correr, entrou, falou, esperou e falou novamente, mas ninguém o ouvia, nem sequer o viam, a não ser um pequeno e stressado cão que ali estava sentado a abanar o seu rabo preto, o cão via-o, dizem que os cães veem os fantasmas, não sei, é o que dizem. O pequeno homem atrás do balcão disse em voz baixa: “Estou a ver aqui um relógio que não trabalha.”. Rapidamente um sorriso surgiu na cara do fantasma. Pensou logo que era ele e o seu relógio, e num ápice tirou o relógio do pulso e poisou-o em cima do balcão. O relojoeiro nem sequer olhou para o relógio, para ele não havia nada no balcão a não ser uma velha caixa registadora e uma pequena caixa de velhos botões. O fantasma triste disse: - Mas que raio! Se ao menos alguém me ouvisse! - Mas ninguém o ouviu, exceto o cão que o olhava com olhos de tédio e já não abanava o rabo preto. Voltou a pegar no relógio e colocou-o no pulso, no momento em que se preparava para apertar a bracelete reparou em algo que nunca tinha reparado antes, um pequeno botão redondo situado no lado oposto ao número três, um pequeno mecanismo escondido. Curioso o fantasma decidiu rodar aquele pequeno botão redondo para trás, mais precisamente duas pequenas voltas. Naquele preciso instante, o fantasma e o seu relógio regressaram ao banco de jardim, precisamente em frente à loja do relojoeiro e precisamente onde ele tinha estado dias antes. Confuso, voltou a rodar o botão duas voltas para a frente, para seu espanto deu consigo instantaneamente dentro da loja do relojeiro novamente no dia presente. – Que raio de magia é esta? – Pensou ainda mais confuso. Decidiu então dar voltas e voltas para trás no botão redondo e deu consigo no banco de jardim, no primeiro dia em que se tinha sentado à espera que a relojoaria abrisse. Ele não queria acreditar no que estava a acontecer e voltou a rodar, a rodar e a rodar para trás aquela pequena roda mágica, rodou-a tantas vezes quantos os dias o seu relógio tinha parado. Mais precisamente no início do dia, reparou que quando acordou não tinha dado corda ao seu relógio e assustou-se como se fosse um fantasma pela primeira vez. Como se ele nunca se tivesse assustado. De seguida lembrou-se que era um fantasma, quis rodar a roda do seu relógio para momentos antes da sua morte, mas, simplesmente não conseguia, a pequena roda ficava presa, como que bloqueada, parecia não querer voltar tanto tempo atrás no tempo, talvez porque o corpo do fantasma não estava mais lá, estava ausente. Ele compreendeu então que o grande desconhecido era o seu estado atual e ficou triste, triste como nunca um fantasma até então teria ficado, pensava em coisas que nunca tinha pensado e deu conta de que não iria mais sentir o abraço apertado de alguém. Profundamente triste voltou a rodar a roda do seu relógio para a frente, rodou e rodou e rodou, precisamente até ao dia em que pousara o relógio no balcão do relojoeiro. Saiu da loja e reparou que havia uma paragem de autocarro com uma enorme tabuleta que dizia “Destino: Nova vida”. Sentou-se e aguardou.
terça-feira, junho 29, 2021
quarta-feira, junho 23, 2021
segunda-feira, junho 21, 2021
domingo, junho 20, 2021
sábado, junho 19, 2021
quinta-feira, junho 17, 2021
quarta-feira, junho 16, 2021
terça-feira, junho 15, 2021
segunda-feira, junho 14, 2021
quinta-feira, junho 10, 2021
quarta-feira, junho 09, 2021
terça-feira, junho 08, 2021
quinta-feira, junho 03, 2021
quarta-feira, junho 02, 2021
segunda-feira, maio 31, 2021
sexta-feira, maio 28, 2021
quinta-feira, maio 13, 2021
quarta-feira, maio 12, 2021
segunda-feira, maio 10, 2021
quinta-feira, maio 06, 2021
terça-feira, dezembro 29, 2020
sexta-feira, setembro 11, 2020
quarta-feira, março 18, 2020
Acordo no escuro sem saber bem porquê. Não há barulho nenhum, nenhum sonho estranho que eu me lembre, nada. Só esta sensação de estar a cair e ser interrompido. Estiquei a mão à procura do telemóvel na mesa de cabeceira, carrego no botão. 3h23. Foda-se! Claro. Nunca são quatro da tarde, é sempre esta merda de hora.
Fico deitado uns segundos a olhar para o ecrã, como se ele tivesse alguma resposta. Não tem. Duas notificações sem sentido, um e-mail qualquer, uma app a dizer que devia ter meditado. Desligo. O quarto volta a ficar negro. Fecho os olhos outra vez, mudo de posição, virar para o outro lado. O corpo já acordou, a cabeça também. Se ficar aqui, vou só enrolar-me nos lençóis a pensar nas mesmas merdas de sempre.
Sento-me na cama. As costas protestam, faz 6 anos que não meto os pés no dojo as pernas doem-me, a necessidade extrema de treinar, o colchão conhece demasiado bem o molde do meu corpo. A casa está completamente calada. Não é só o silêncio da noite, é o silêncio deste ano, menos carros, menos gente, menos tudo. Agora toda a gente dorme em casa, ou finge. Os miúdos hoje não estão aqui, estão com a mãe. A ausência deles aumenta o eco, expande a tristeza.
Levanto-me devagar, caminho no escuro como quem já fez este percurso demasiadas vezes. Chego à cozinha, acendo a luz fraca do exaustor. A luz amarela desenha sombras feias na parede, realça a loiça que ficou a secar, o pano molhado esquecido na mesa, um íman no frigorífico com a foto deles.
Abro a torneira, encho um copo de água mas lembro-me logo que esta água do Montijo é uma merda, tem mais calcário que o deus me livre, encosto-me ao balcão enquanto bebo. A água está fria, escorrega pela garganta, não resolve nada. Penso que o mundo anda em pânico com medo de morrer e eu, às três da manhã, tenho mais medo de continuar exatamente assim durante anos. Pouso o copo, passo a mão pela cara, suspiro fundo, como se isso ajudasse a empurrar o ar para dentro.
Vou para a sala. Acendo outra luz fraca. A sala à noite parece ainda maior, como se o silêncio afastasse os móveis uns dos outros. A mesa, o portátil fechado, o carregador enrolado, o caderno, uma caneta, um copo vazio do café da tarde. Trabalho aqui desde que começou esta palhaçada da pandemia. O que antes era sala agora é escritório, refeitório e consultório de crise existencial, tudo aqui na minha casa, a unica coisa que me mantém alegre é ver brinquedos espalhados por todo o lado, sinónimo de que os putos brincam, amo-os.
Sento-me no sofá. Fico uns segundos sem fazer nada, só a ouvir o prédio respirar: um cano, um passo lá em cima, um carro ao longe. Depois agarro o caderno para mim e abro-o. As páginas estão cheias de outras noites como esta. Poemas, frases, desabafos, tudo misturado. Vejo letras do início deste ano. É como folhear o meu historico clínico.
Pego na caneta. Não penso muito, começo a escrever porque sei que se não escrever fico só aqui sentado a aumentar a pressão no peito. Escrevo que acordo outra vez a meio da noite, que olho para o telemóvel, que vejo as notícias, que o mundo está à rasca com um vírus e eu continuo à rasca com a minha cabeça. Escrevo que toda a gente diz “vai passar” e que eu já ouvi essa merda antes, em outros contextos, e sei que às vezes passa mas não melhora – só se transforma noutra merda qualquer.
Penso no trabalho. Puta que os pariu, passo os dias a aturar incompetentes preso a videochamadas, tickets, programação de merda, mensagens, “podes ver isto com urgência?”, “é importante”, “é crítico”. Trabalho mais horas em casa do que antes, porque o computador está sempre ali, a meio metro de mim. Se respondo, sou competente. Se não respondo, sinto-me culpado pela incompetencia deles. Não há fronteira nenhuma entre “estar em casa” e “estar a trabalhar”. É tudo o mesmo sítio, a mesma cadeira, o mesmo cansaço.
Penso nos miúdos. Quando eles estão aqui, há barulho, desenhos, perguntas, discussões sobre filmes, gargalhadas, birras, pratos sujos, vida, vida é isso que existe quando eles estão aqui. Faço o pequeno-almoço, digo para lavarem as mãos dez vezes, tento ser pai e mãe porque a mãe não quer saber, tento não falhar demasiado. Quando não estão, como hoje, a casa parece um cenário depois de alguém desmontar a festa. As coisas estão arrumadas demais, o silêncio sobra.
E, como se não bastasse também apareces tu. Não preciso de fazer esforço. Basta estar acordado a esta hora que a tua memória vem sozinha. Já não é o choque dos anos anteriores, mas também não é distância. É uma presença difusa, uma sombra que se senta ao meu lado como se tivesse lugar marcado, já não te vejo há anos, mas quando envias mensagem a dizer que tens saudades... foda-se cai-me tudo. Vejo flashes rápidos, uma conversa, um café, o teu sorriso, um toque, um dia qualquer em que eu ainda acreditava que podiamos ter uma vida.
Fecho os olhos por um instante, deixo isso passar pelo corpo, abro de novo e escrevo mais uma linha qualquer sobre saudade, sobre algo que já acabou mas continua a morar aqui. Não preciso de ser bonito, só preciso de ser honesto. É isso que tento fazer não mentir no papel, pelo menos.
Pego no telemóvel, por impulso abro as notícias. Vejo números de infetados, de mortos, gráficos, especialistas em tudo, gente a gritar em caixas de comentários. Fico cansado ao fim de trinta segundos. Fecho. Abro o bloco de notas, leio uma frase qualquer que escrevi há meses, sobre o ar ficar irrespirável, sobre palavras acumuladas no peito, sobre não caber bem neste mundo. Dou um sorriso curto. Sou consistente na desgraça, pelo menos.
Pouso o telemóvel na mesa, com o ecrã virado para baixo. Não quero ver mais nada.
Volto ao caderno. Escrevo que o mundo está com medo de morrer e eu tenho medo de continuar assim, que o tempo todo em casa está a dar demasiada oportunidade para ouvir a minha própria cabeça, que há dias em que tudo parece suportável e outros em que respirar parece trabalho a mais. Escrevo que sinto falta deles a correr pela casa, a chamar “papá” por tudo e por nada, e que isso, por mais cansativo que seja, ainda é a única coisa que me amarra à realidade de forma decente.
Fico alguns minutos calado depois de pousar a caneta. Sinto o corpo mais cansado do que quando me levantei da cama. Não há epifania, não há paz, não há luz divina. Há só uma pequena sensação de que aquilo que estava a rodar cá dentro já não está totalmente preso. Está em cima do papel, o que é ligeiramente menos sufocante.
Fecho o caderno e levanto-me, apago a luz da sala, volto para o quarto. Deito-me outra vez, no mesmo lado da cama de sempre. O colchão volta a encaixar o meu peso. Olho para o teto que não vejo, porque está escuro, mas sei exatamente como é. Penso que amanhã vou acordar, trabalhar, responder a e-mails, talvez ir ao supermercado, buscar os miúdos, ouvir mais notícias sobre números e curvas e merdas que eu não controlo.
segunda-feira, agosto 12, 2019
De dentro para fora
Existem diversas casas em Oiã, tantas que nem eu sei dizer: brancas, amarelas, verdes, vermelhas e de muitas outras cores. Copiam-se umas às outras e perdem-se de vista. Nenhuma, porém, é tão misteriosa como a casa mais antiga da vila.
Na verdade, trata-se de um pequeno palácio esquecido no tempo, abandonado e quase sem vida — quase, porque ainda se ouvem pássaros e se veem lindos gatos ronronantes a brincar nos jardins em volta. Mesmo assim, diz-se que um velho conde terá lá vivido há centenas de anos e que a casa se tornou assombrada. Contam-se histórias de uma misteriosa mulher, ou até de uma família inteira, que ali teria vivido.
Pouco se sabe sobre aquele palacete e a sua história; o que se soube perdeu-se no tempo. Havia algo que habitava a casa — e não eram só aranhas, baratas, ratos ou gatos cinzentos. Um fantasma vivia tranquilamente dentro daquelas paredes. Não se ouvia. Não era um fantasma qualquer, nem tinha um ar assustador como poderíamos pensar. Na realidade, nem se via: era uma espécie de homem invisível, ou lá como se chamam as coisas que a gente não vê. Também não era conde; de conde nada tinha. Mas era um fantasma, fazia as coisas que os fantasmas fazem e, curiosamente, tinha medo de fantasmas.
Todos os dias, pela manhã, depois de várias meias-horas a passear pelo jardim labiríntico, dirigia-se à biblioteca que ficava por baixo da casa, acessível apenas através de um mecanismo secreto no salão de música. Perto da janela havia um gancho junto a uma estrutura de ferro onde se prendia o cortinado. Três voltas à esquerda, duas à direita e uma ligeira pressão para dentro — e, automaticamente, no lado oposto, junto ao chão, abria-se uma escada em caracol.
Foram poucos os proprietários que conheceram a sua existência, ao contrário desse ser invisível que já dominava a engenhoca desde o início da construção. A escada de madeira dava acesso a uma antiga biblioteca, tão antiga quanto ele, tão antiga quanto as paredes altas que guardavam os livros em estantes de carvalho escurecido, onde o cheiro do papel se confundia com o da madeira. O teto erguia dez cúpulas, minuciosamente decoradas com afrescos; junto às estantes, longos escadotes de madeira. Os livros preenchiam as paredes — pequenos, grandes, milhares — cuidadosamente catalogados e numerados.
Havia livros de todos os tipos e tamanhos: grandes livros de culinária com capas duras e títulos em letras largas; enciclopédias de saúde em vários volumes, com capas de couro e letras douradas; aventuras e romances; poesia em grossas capas vermelhas, azuis e pretas; crimes inventados, anedotas e adivinhas; livros para crianças e publicações de várias épocas.
No centro da biblioteca, um enorme cadeirão de veludo verde marcava território. Ao lado, uma pequena mesa de madeira ornamentada lembrava a Floresta Negra. Se as manhãs eram passadas no jardim, o resto do dia era ali, na companhia de milhões de páginas. Lia e relia. Eram a sua companhia; juntos faziam uma ótima sociedade. Ler trazia-o de volta à vida. Lia um parágrafo, cerrava os olhos e visualizava: as pessoas viam-no e falavam-lhe; ele podia tocar os objetos e sentir; podia voltar a sentir todos os sentimentos.
Toda a sua existência ganhava sentido — como se renascesse das palavras e vivesse aquelas experiências vezes sem conta, as vezes que quisesse. Fascinou-se por Júlio Verne; e havia outros que, como ele, não lhe limitavam a imaginação.
Durante centenas de anos, ele leu e releu cada parágrafo, cada página. Mas, naquele dia, depois de observar os pássaros que voavam sobre os ratos que fugiam dos gatos, rodou o engenho: três voltas à esquerda, duas à direita, leve pressão — e desceu a escadaria. Num ápice, tocava as lombadas como se as pudesse ler num só instante, letra a letra, palavra a palavra. Subiu um escadote, e outro, e mais outro até à última estante do último andar, lá em cima, perto do teto.
Reparou que, ao lado do livro número novecentos e trinta e quatro, estava um volume sem numeração. Um livro desconhecido. Não compreendia por que não estava numerado. Aproximou-se e leu o título: Vida. Pensou: “Ora esta! Por que estava um pouco mais atrás? E por que nunca o teria lido nem sequer notado que aqui estava?”. Passou a mão pela lombada e retirou-o devagar, como se manobrasse algo frágil.
O livro tinha capa fina e muito macia — um veludo delicado de cor suave. Exalava um cheiro diferente de todos os outros: doce perfume a jasmim misturado com um leve odor a caramelo. Olhou para o livro — e o livro olhou-o de volta, como se o chamasse. Pela primeira vez, não sabia se escolhera o livro ou se o livro o escolhera a ele.
Não o abriu. Apenas o observou, curioso como uma criança. Tirou-lhe as medidas com os olhos, aspirou-lhe o cheiro, deixou que os dedos viajassem pelo título áspero cravado na capa. Que estariam ali escrito? Que viagem era esta que ainda não fizera? Desceu ao solo e foi até ao cadeirão. Sentou-se. Pousou o livro na pequena mesa.
Noutras circunstâncias estaria impaciente; agora, não. Apenas curioso: como pudera um livro escapar-lhe? Há quanto tempo estaria ali? Quem o teria trazido? Questões talvez sem resposta — e que talvez nem precisassem de resposta.
Pegou no livro, contemplou uma vez mais a textura suave e o título Vida, que brilhava diante dos seus olhos. Abriu a primeira página — e nada. Vazio. Folheou a segunda, a terceira e todas as que se seguiram — nada: nem uma única letra, nem uma palavra. Confuso, fechou o livro. Teve a sensação de que a capa o fitava. Pousou-o na mesa. No momento em que se levantava, o livro abriu-se sozinho: letras brotavam na primeira página como tinta numa tela mágica.
“Mas que magia é esta?”, pensou. Lera livros de magia, feitiços e outros; nunca um livro lhe quebrara a barreira do mundo físico. Depois de algum tempo, as letras tornaram-se nítidas e podia ler-se:
De dentro para fora
De fora para dentro
De dentro tudo trarás
De fora nada levarás
Ainda mais intrigado, aproximou-se. As palavras formavam-se letra a letra e, depois de lidas no pensamento, desapareciam sem deixar rasto — linha após linha, parágrafo após parágrafo. Isso não o impediu de continuar. Leu as páginas seguintes até começar a sentir o peso do seu corpo. As pernas, antes leves e sem forma, eram agora pernas de menino; os braços, de carne e osso; as mãos pequenas prendiam-se às da mãe e do pai.
Ouvia o riso das crianças e misturava-se com elas. Brincava; a sua voz ecoava como as vozes dos outros meninos. Era o rapaz que ficara perdido no tempo. Brincou e brincou com os amigos; construiu cavalos de batalha em palha, espadas de madeira, casas nas árvores — todas as brincadeiras do seu tempo.
Chegou a uma página em que o corpo mudou: jovem adulto, lutava para não sentir o calor intenso do fogo que lhe lembrava a perda do pai e da mãe. Chorou. Chorou tanto que parou de ler; soluçava; as lágrimas corriam-lhe pela face. No meio da multidão, tentava salvar vidas. Um adulto a quem fora revelada a dor da perda — e, de dentro para fora, era a única coisa que podia ser.
Parágrafo após parágrafo, voltou a sentir a alegria de viver: nasceu-lhe um filho; depois, uma filha; e outro filho; e mais outro. Era feliz. A sua companheira era a mulher que amava. De fora para dentro, nada o preenchia; eram o amor e a fraternidade da família que lhe davam conforto.
A pele macia ganhou rugas. Envelhecia e lia — como se a vida ecoasse naquelas páginas e, agora, o mundo fizesse sentido. Os netos corriam pela casa, desarrumavam-lhe os livros, arrancavam flores do jardim e puxavam o rabo aos gatos; mas também lhe tocavam as mãos e ele podia sentir, brincar e rir com eles. E lembrou-se, uma vez mais, de que a sua vida era feliz.
Muito velho, sentiu-se deitado numa cama, rodeado pelos filhos e netos. Compreendeu: de fora nada levaria para o grande desconhecido; levaria, sim, a beleza interior que experienciara em vida. Prestes a terminar a última palavra da última página, fechou os olhos. O corpo estremeceu uma última vez. Pousou o livro mágico na velha mesa, levantou-se — e dissolveu-se nos últimos raios de luz da tarde.
terça-feira, julho 23, 2019
Como se dissesse adeus a uma criança
Desse modo, em que não estou
Fecham-se os meus olhos em sonhos
E é tudo. E é nada.
Como um vazio que se abre para o mundo
Posso dizer que nasço de novo
Ou dizer que já não sou o mesmo que a vida esconde
Já não sou eu senão o sonho
Talvez seja uma melancolia
Mas que certeza eu tenho que não é um sonho?
Onde não quero dormir
E por amor
Talvez eu fosse
quarta-feira, junho 19, 2019
segunda-feira, junho 17, 2019
Depois de batidas na máquina
Sinto-as impressas como se fossem mais que palavras
Sentimentos marcados
Sabes... às vezes certas letras rasgam o papel
Perfurando-o de um lado ao outro
Deixam pequenos buracos por onde a luz passa
Não sei já se é a emoção que trago comigo ao bater nas teclas
Se é apenas o mecanismo que bate no papel possa estar estragado
Eu acho que é ela, esta máquina velha que já me vai conhecendo
Deixa-se levar pelo ritmo do que sinto
Eu acho que ela se funde em mim
Não sei...
Tenho impressão que ela me conhece
Que de qualquer forma já me desvendou e sabe quem sou
Sabe o que penso
Sabe que tenho fome de ti
Pois o bater ritmado das letras
Revela-se morno, quente ou frio, forte
Lento e fraturado
Sim esta máquina tem qualquer coisa
Qualquer feitiço que me conhece
segunda-feira, abril 22, 2019
Os velhos
Naquele verão ela não veio, nem naquele nem nos outros que se seguiram. Passaram invernos e todas as estações do tempo, tantas que quase caíram em esquecimento. Terá sido um dia após o outro, uma semana após outra ou talvez ano após ano, até que as canções passaram de moda, como que, paradas num tempo que já não existia, mas as músicas deles não tinham parado, pelo menos para eles. Por vezes ele recordava no mesmo café de sempre, escutando com o ouvido da memória a canção Woman de John Lennon, outras subia-lhe o ritmo dos Rolling Stones, preenchiam-no por momentos com Wild Horses. Foi assim durante trinta e cinco anos. – Que fazes aqui? – Pergunta o velho sem medo. – Vim ver-te. – Responde ela. – Foda-se! Agora?! – Não me fales assim, nunca é tarde para reparar os nossos erros. Com os olhos postos no chão o velho diz: – Erros? Já não sei do que falas. Estás velha! Mas bonita. – Tu também, ainda tens os mesmos olhos. Vezes sem conta o velho ensaiava o discurso, falava sozinho como se ela ali estivesse para o ouvir. Sentava-se à janela e observava o tempo passar, imaginava as mãos dela nas suas e lembrava o toque que o deixava calmo. Passaram os Beatles, os The Doors e os Xutos, como se fossem composições numa estação de rádio ou a banda sonora da sua vida. Trim trim três da manhã, o telefone acorda o velho, meio sonâmbulo, atende com uma voz amarfanhada: - Estou? - João? És tu? - Sim! Quem fala? - Sou eu, a Maria. Não sabia se havia de rir ou chorar, nunca fizera tanto sentido a nota musical que marcara a presença do silêncio nos livros de música, silêncio, um velho e companheiro demasiado presente. - João estás aí? – Repetiu ela - Sim estou, é muito tarde. – A voz arrastada não lhe permitia falar. - Preciso de ti, o meu marido morreu há dois meses, sinto-me triste João, preciso de ti. – Disse ela como uma criança dentro de uma mulher. Ele desligou o telefone, pousou-o devagar na cabeceira, como se quisesse prolongar ainda mais a agonia de um ato de coragem. Adormecera como se não quisesse acordar. Tornara-se vulgar o cheiro a velho, ao fim de algum tempo até os espelhos deixaram de refletir as imagens dos dias que passam, talvez por causa disso já não se via ao espelho tantas vezes como os jovens imaturos. E as sopas, sempre as mesmas, deslavadas, o arroz, sempre o mesmo e também as mesmas batatas nos mesmos pratos brancos amarelados, assim como os mesmos sapatos e as camisas brancas ou azuis. Naquele dia todas as camisas pareciam diferentes e os sapatos quase novos e engraxados, até o café tinha um cheiro diferente, toda a solidão era um só pensamento alastrado durante dias e anos, impresso nas mãos dum corpo enrugado. A manhã era diferente, sobretudo cinzenta mas como se o sol brilhasse saiu à rua e a voz dela acompanhou-o, ouvia-a num murmúrio suave, confiscado entre o sonho e o sono. Fez o mesmo trajeto, passava à porta da oficina do António, o cheiro a gasolina e óleo fundia-se com o cheiro a pão da pastelaria ao lado. Ouvia Time is on my side dos Rolling Stones no seu leitor de mp3 que o neto lhe ofereceu num dos últimos aniversários, que ironia, ao mesmo tempo a voz dela no interior da sua cabeça, não sabia se estava contente por o marido ter batido as botas ou por valentia lhe ter desligado o telefone na cara, quebrando assim anos de solidão intensa. O velho estava diferente, parecia uma outra vida, apanhara o autocarro e queria almoçar peixe assado em Lisboa, sentar-se num restaurante qualquer, beber um copo de vinho e andar, andar por aí como andam os miúdos novos, como se não tivesse mais nada para fazer, como se os seus sapatos fossem novos e necessitassem de ser acomodados aos pés. Caminhava distraído pela cidade, os sons eram todos diferentes, os cheiros todos extraordinários e as paredes, essas já não se moviam contra ele num apertado gesto constrito, o coração já não fintava as ruas nem se mascarava perante os olhos quentes e frios das pessoas, em vez disso misturava-se com a vida dos que por ele passavam naquele dia, onde todos saíram à rua para lhe dar as boas vindas. De regresso a casa, mãos nos bolsos, a descontração constante de um homem apaixonado mas visivelmente cansado, reparou ao longe abeirada na sua porta, o semblante de uma mulher, ajeitou os óculos e olhou-a, a mesma pele branca e a mesma face rosada que deixava transparecer suavemente as veias do queixo, aquelas veias que ele tanto conhecia, que ele tanto beijara. O cabelo dourado, longo e liso caído sob os ombros. Ela esperava-o, como se aguardasse o infinito, atenta à rua como uma adolescente à espera de um beijo prolongadamente eterno, até que o viu. Numa camara lenta de sentidos os olhos cruzaram-se como se cruzam todos os olhos gémeos, sem preconceito fixando as testas, os narizes, as bocas, os lábios, as rugas, os corpos e o tempo num só momento. Não sei quanto tempo deixou o tempo que ficassem naquele estado de embriaguez, mas a língua do velho cujos discursos treinara durante anos vezes sem conta ficara presa, a escassos metros, escapando-lhe apenas da boca um soluço, seguido de outro, uma lágrima e depois outra, talvez as suficientes para levar as mãos à cara. Sim, os homens também choram e os velhos por vezes lacrimejam escondidos, como se a vergonha lhes ocupasse o lugar da humanidade, sem temor ela alcançava-o num caminhar desesperado, como se toda a eternidade dependesse daqueles dois velhos miúdos, e o abraço foi terno e apertado, cabia dentro dele todo o universo onde as faces se encontravam e as lágrimas se misturavam numa alquimia perfeita, as mãos trémulas percorriam as costas, os braços a cara e o calor era morno, humano, demasiado humano, fazendo crer que os velhos também amam, também sentem, também vivem.
terça-feira, março 26, 2019
Encontro-me sem me querer encontrar
Sob a ferocidade do mundo
Esgota-se a tristeza e faz-se noite
A poesia comunica
Como uma resposta kármica
Apresenta-se a ela própria
E aos outros que não querem vê-la
Mas quando não existe mais nada
Quando não há coisa nenhuma
Então surge o verbo
Como uma sentença premeditada
Como que inatingível e perverso
Numa alquimia pandemica em forma de palavra
Que representa esta comunicação vibrada
E então num breve diálogo secreto
Como se fechasse os olhos
E mesmo assim, toda a nitidez do mundo
Surgisse perante a negra e escura luz interior
Como se de um intervalo no tempo se tratasse
E a grotesca solidão de estar só se revelasse
Por entre a humanidade
Que é certamente mais gente do que eu
E eu certamente em mim mantenho as dimensões
Ainda que ilimitadas do universo
Como um eterno epílogo intransigente
terça-feira, fevereiro 05, 2019
Na esfera do dia-a-dia
No descalabro da vida virtual
Permito-me chorar por alguém que não conheço
Por alguém que morreu
Por aquela menina assassinada pelo pai
Encontrada numa mala de um carro
Porquê? Pergunto-me!
E porque sou humano
Então eu choro sem resposta
E comovido porque não entendo
Abate-se em mim uma tristeza
Uma estranha tristeza do mundo
E as lágrimas não se contêm
Escorrem simplesmente
Deixo-as cair livres
E não me importo se me vêem ou não vêem
Se me falam ou vêem falar
Há lágrimas que não devem de ser caladas
Como pode o mundo ser assim cruel?
Uma escuridão que nos rodeia
Triste é quando morre alguém
Mas quando uma criança morre...
Se ao coração cabe o amor
Então à humanidade cabe saber se é capaz
Enquanto esperamos por lentas respostas
As lágrimas podem cair
Não é proibido chorar quando se é humano
Mas com toda a triste demência que me rodeia
Talvez eu não seja humano
Talvez eu seja então de outro planeta
Porque não cabe em mim tanta tristeza
quarta-feira, janeiro 30, 2019
Senão o ritmo da vida
Tal como a água flui
E o vento não descansa
Também o ritmo da alma não tem torpor
E a frase dita e não dita
Molda o poema
Refaz uma vida
Conserta o espírito
Reconstroi e alimenta
Quanto à eternidade
Descreve-a...
E engorda-se dela
Num poema, todos os corpos são palavras
Todas as formas são verbos
Ora nascem
Ora crescem
Morrem e ressuscitam
É o poema a ser um poema
No seu próprio ritmo
De braços abertos para abraçar
Sendo ele um arquitecto
Ele arquitecta-se
Refaz-se
O que é um poema sem ser um poema?
Uma criança sem ser uma criança?
Uma mulher sem ser uma mulher?
Um homem sem ser um homem?
O que somos senão poemas
Senão caminhos válidos para as palavras
Que cabem em nós
Que nos vivem
Que nos somam
Na metafisica da vida
Do ser humano
Do amor
O poema é nada mais do que a doutrina da essência das coisas
terça-feira, janeiro 29, 2019
Qual engate desengatado
Miserável
Numa corrida contra o tempo
Numa penetração vazia contra o nada
E a solidão lá está
Quieta num dia-a-dia cada vez mais novo
Mais recente
Mais só...
E lá vai ela também
Como que se buscasse algo
Talvez o infinito
Num dia em que o dia não passou da noite
E a noite foi o dia todo por ele inteiro
Engolido na solvência da madrugada
Da manhã, da noite
E eles encontram-se num vazio que é só deles
Numa transparência que é só deles
Numa dor que é só deles
Em uma solidão que não se vê
Mas que se sente
Que se impôe
E que morre dentro um do outro
quarta-feira, janeiro 09, 2019
Atei-lhe os pés
As mãos
Tapei-lhe a cara
E sufoquei-o
Com o manto dos objetos
Com a vida
Esqueci-me dele no tempo
Diria que o matei bem morto
Depois engoli-o e escondi-lhe a alma
E o tempo passou
O tempo passa sempre
Não pára...
Nunca pára
Quando me recordo da cara dele
Sorriso eterno
Quando me lembro dele, era apenas um cego que queria ver
Um miúdo de vinte anos faminto de vida
E por vezes na vida não se vive
Sobrevive-se...
Complica-se...
Morre-se lentamente, como quem se mata
Num suicídio agonizante
Morre lentamente quem não faz o que ama
Quem não chora
Quem não ri
Matei sim...
Quem sabe asfixiei um sonho de criança?
Mas não fui eu!
Não!
Recuso-me a ser um criminoso, um suicida...
Pois no mundo há sempre quem culpar
Para mim, foi a sempre alegre e cobarde sociedade
Fétida e imoral...
E agora o medo...
O medo de morrer duas vezes
Um medo que se assume em contrabando
Que se move fugaz
Que se autoproclama
Então eu penso: Será que matei aquele homem?
Será que me enterrei
Será que...
Será? - Pergunta o menino.
Aquele menino homem, observador, que me acompanha
E eu?
E eu? Que respondo?
Eu não sei responder
sexta-feira, dezembro 28, 2018
Entre canetas e papeis
Computadores estúpidos
Numa estranha mania inteligentes
Inanimados e obscuros
Entre empresas multinacionais
A vida avança e não pára
Relaciono-me com as palavras
Bato-as na máquina de escrever
Nas teclas fulminantes, canetas ou lápis HB
Atravesso palavras
E sinto-as crescer
Renascem no meu ego
Deixo-as expostas para as deixar ir
Sou apenas e unicamente um poeta
Que colecciona sentimentos que sente
Numa linguagem nua em que se vê crescer
E na palpitação da vida
Não sou nada
Sou só um transitório corpo que avança
E envelhece
E ama
sexta-feira, novembro 30, 2018
Acordei às três e quarenta e dois, outra vez...
O relógio brilhava no escuro como se me estivesse a gozar:
“Olha ele, o poeta da merda, mais uma noite sem dormir.”
Levantei-me devagar, aquele peso de quem já viveu vidas a mais dentro da mesma pele. A casa estava silenciosa, os miúdos a dormir, o mundo a fazer de conta que é normal. Fui à cozinha, abri o frigorífico, fechei o frigorífico. Nem fome, nem sede. Só aquele buraco no peito que já devia pagar renda.
Sentei-me à mesa com o caderno, aqueles cadernos de capa preta, compro-os as quantidades. A velha história.
Caneta, papel, e um tipo de quarenta e tal anos que ainda escreve como se tivesse vinte e estivesse prestes a explodir de amor e de medo.
“Se eu não fosse seria um sinónimo de coisa nenhuma”, escrevi num poema recente. E parei.
Conhecia aquela voz. Era minha, mas de outro tempo.
Tanta folha branca rasgada, tanta madrugada que cheira a nada e a ti ao mesmo tempo.
Tu.
Caralho, tu outra vez.
Não estávamos juntos há anos, mas continuavas a aparecer na mesma hora: entre as três e as quatro, quando o silêncio da casa fica grosso como fumo de cigarro barato e o corpo decide lembrar-se que tem coração.
Um coração burro, insistente, desses que não lê o contrato da vida e assina tudo o que aparece.
Agarrei na caneta com mais força.
Senti o velho ritual: primeiro vem a saudade, depois vem a raiva, depois vem a poesia a tentar salvar o que resta.
— Vai passar — murmurou uma parte de mim.
Mas eu conheço bem essa frase.
“Vai passar e quando passar vou-me embora”, escrevi no caderno.
A merda é que passou, eu continuei aqui e nunca fui embora de lado nenhum.
Fiquei preso aqui, na mesma pele, na mesma ausência.
Há uma suavidade que permanece nos lugares onde a luz não chega.
Tu eras essa suavidade, foda-se. O problema é que ao mesmo tempo eras a ferida aberta debaixo dela.
Lembrei-me das noites em que eu dizia que só queria um abraço, um beijo, qualquer coisa, e vinha em troca um silêncio cheio de medos teus. Essa tua parte racional mais neutra, faz com que decides mais com a cabeça do que com o coração, isso sempre me pareceu um crime perfeito: matava-me devagar, sem deixar provas.
Encostei as costas na cadeira, olhei para o teto como se Deus tivesse lá deixado um post-it esquecido aqui por cima.
— O que é que eu ainda estou aqui a fazer?
A resposta veio como sempre: escrever.
Escrever é a forma que arranjei de não morrer afogado naquilo que sinto.
Escrevo para lembrar que vivi. Para lembrar que amei como um idiota.
Escrevo porque quando não escrevo, a tristeza cresce como erva daninha na cabeça.
Lembrei-me de quando decidi deixar de comer carne porque percebi que o verdadeiro animal era eu.
Continuo a pensar o mesmo.
Continuo a achar que a humanidade é um erro ortográfico que alguém se esqueceu de corrigir.
A única coisa que presta, às vezes, é isto: um tipo sozinho à mesa, a sangrar palavras para um caderno, enquanto toda a gente finge que está tudo bem.
Pensei no miúdo que fui, naquele puto de quinze anos que te beijou no elevador, faminto de vida que tu amaste sem filtros.
Matei esse cabrão algures no caminho, asfixiei-o devagar com empregos, contas, obrigações, responsabilidades, reuniões de merda, senhas retiradas em repartições públicas e conversas vazias sobre o tempo.
Mas há noites... há noites fodidas, como esta, em que ele volta.
Volta quando escrevo “Deste modo eu penso em ti como se a complexidade da vida estivesse em descrever-te”.
Volta quando confesso que ainda tenho fome da tua boca, mesmo que já só exista na memória.
É ridículo.
Um homem feito, pai, trabalhador, a falar sozinho na cozinha com um fantasma.
Mas é isso ou enlouquecer de vez.
A caneta recomeçou a mexer-se sozinha:
Numa madrugada já rasgada pelo tempo
Onde o silêncio se confunde com o ar
Eu noturno divago sobre mim
“Numa madrugada já rasgada pelo tempo
Onde o silêncio se confunde com o ar, eu noturno divago sobre mim”
Li em voz baixa.
Soube-me honesto.
Soube-me cruel.
Soube-me pouco.
— Foda-se, isto não chega.
Queria gritar mais alto. Queria escrever como quem parte um copo contra a parede. Queria prender-te ao papel de vez, como quem agrafa um aviso na porta do Universo: “AQUI MORREU UM AMOR DO CARALHO! DO CARALHO”
Mas a verdade é que eu não sei matar-te.
Nunca soube.
O máximo que consigo é isto: transformar-te em poema, em prosa torta, em capítulo de livro que ninguém sabe se vai ficar pronto. Há quem chame a isto arte. Eu chamo sobrevivência, a minha sobrevivência.
Acendi a luz fraca da sala, aquela que não acorda ninguém.
Olhei em volta.
A casa, as coisas, os objetos, o sofá onde às vezes me deito a pensar que a vida podia ter sido outra, se eu tivesse sido menos medroso, ou se tu não tivesses sido sempre tão racional.
Eu, tu, as probabilidades falhadas.
Podíamos ter sido tudo.
Fomos quase.
E o “quase” é uma palavra fodida: pesa mais do que o “nunca”.
Voltei ao caderno.
Escrevi:
“E escrevo, escrevo tudo o que vejo
Escrevo tudo o que sinto”
Olhei para a frase e percebi que já a conhecia, de outra madrugada, de outro ano, de outro eu.
Estava tudo ligado: 2003, 2005, 2010, 2015, hoje.
O mesmo homem, em versões diferentes, a bater nas mesmas paredes invisíveis.
Ri-me sozinho.
— No fim ficam sempre as palavras e uma mão cheia de ilusões. Ou então não.
Fechei o caderno.
O mundo lá fora começava a ficar claro devagarinho, aquele cinzento sujo antes do dia decidir que cor vai usar.
Levantei-me da mesa com a sensação estranha de que, por hoje, tinha sobrevivido.
Não tinha resolvido merda nenhuma: tu continuavas longe, a humanidade continuava uma desgraça, e o miúdo de vinte anos continuava morto algures debaixo das contas por pagar.
Mas eu ainda escrevia.
Enquanto escrevo, ainda estou vivo.
Fui ao quarto.
Olhei para os miúdos a dormir.
Ali estava a única parte da vida que eu não conseguia transformar em poema porque é maior do que qualquer verso.
— Um filho nunca é nosso — pensei. — Mas eles são o mais perto que já estive de Deus.
Tapei-os melhor, respirei fundo.
A saudade de ti continuava cá, mordendo-me o peito.
Mas, pela primeira vez naquela noite, ela cabia dentro de uma frase.
E isso, para mim, já era uma pequena vitória. Uma daquelas vitórias silenciosas que ninguém vê, mas que salvam um homem de se afundar de vez.
Voltei para a cama.
O relógio marcava 5h17.
Talvez dormisse.
Talvez não.
Uma coisa é certa, amanhã de madrugada, se a saudade viesse outra vez, eu estava aqui.
Papel e caneta e este coração que vai sobrevivendo
quarta-feira, novembro 21, 2018
À distância de uma madrugada exausta
Consumida pelo fogo da noite
Nos meus ombros, um casaco envelhecido
Observo o tempo que passa devagar
Está frio e escondo a cara
Procuro a liberdade neste papel branco
Se a encontrar mantenho-a em cativeiro
Sob as correntes apertadas do mundo
Os olhos fechados, discutem com a escuridão
Rasgam a noite que há em mim em mil pedaços
Confundem-se ou fundem-se
Com o apagão nocturno
Não, não é Setembro
É apenas uma noite familiar
Onde caio e me levanto
Como uma maldição
Não preciso de ir buscar inspiração a lado algum
As palavras vêm ter comigo
Crescem aqui dentro
Um fardo pesado que cicatriza lentamente
Por vezes finjo que passa
Outras descaio-me nas palavras
Como se escorregasse na chuva
Ou se caísse no chão coberto de destroços de guerra
Sabes, longe não é assim tão longe
Volto para trás e avanço
Hipnotizo o tempo
E faço dele o meu aliado
Não quebro a espada
Não desfaço a alma
Não parto nada que não esteja partido
Olho a noite a passar
Vejo-a escrita
As minhas palavras movem-se silenciosas
Como um navio que tenta alcançar uma terra distante
Uma paz utópica
Uma feitiçaria
Um qualquer poder nocturno
quinta-feira, novembro 15, 2018
Se o som das palavras que me amarram
Pudesse alguma vez soltar-se
Eu descreveria com a minha voz
Uma dor que já não dói
Falava em voz alta e de cabeça erguida
E então ouviam-se as palavras
Ouviam-se histórias contadas aos cantos
De quem ama como ama o amor
De quem sofre lentamente
Mesmo que me fizesse chorar
Pois um homem também chora
Também se entristece
Também sente quando alguém não está presente
Se as palavras se soltassem
Eu voava sem ter medo da altura
quarta-feira, outubro 24, 2018
segunda-feira, outubro 22, 2018
terça-feira, outubro 02, 2018
sexta-feira, agosto 31, 2018
Se eu não fosse
Seria um sinónimo de coisa nenhuma
Então, também eu não teria acontecido
Não seria
Seria puramente nada
Mas seria um vazio implorante de tudo
Eu seria um vazio chato e reclamante
Mas nunca me perderia
Eu seria o silêncio
Seria a semente do acordar
Que não adormecia
Mas que queria florescer
Ah... Se eu não fosse nada
E o mundo fosse tudo?
Será que eu queria ser?
Não...
Não queria todos os dias o ritual do mundo
E aquela saudade do vazio, do nada
Iria certamente aborrecer-me
E transformar-me no tudo que sou
quarta-feira, agosto 22, 2018
Dias de terra
Nós de cabeça baixa
A olhar para o nada
Sozinhos com pouco no bolso
Uma casa desarrumada
Os amigos na vida
E o que dela resta
Consome-se o tempo e o mundo
Espalha-se lentamente a eutanásia pelas ruas da cidade
Onde ninguém já brinca
Onde não se vêem as crianças jogar
Só os ateus cabisbaixos nos seus telemoveis
Desfeitos de vaidade e parvoíce
Jazem velhos e apodrecidos
Numa rua de merda
Onde ninguém se fala
Onde ninguém se conhece
E todos se desfazem lentamente
quinta-feira, agosto 16, 2018
Vai e volta como as ondas do mar
Um vai e vem de intrusão
E como se não bastasse não estás aqui
Nem vais estar
Como se não bastasse
Não há sossego
Mas vive-se
Respira-se o mar que continua de azul turquesa
segunda-feira, agosto 06, 2018
Lamento para mim ter perdido aquele sabor
O sabor de saber amar
Talvez não consiga amar já
É a definição de tristeza pura
Leva-me aonde não fui
Leva-me à ternura desse saber
Dessa moda intemporal
Não quero o espaço do vazio
Não quero as palavras não escritas
Não ditas
Talvez o sabor tenha ficado preso no tempo
Congelado num continente distante
A minha cara parece não mostrar o que sinto
Mas não...
Os meus olhos não me mentem
Apenas me assustam
E desesperam
Caem no infinito
Desmontam-se em peças
Abrigam-se ocultos
Vive mais do que ontem!
Mas vive
Sem amanhã
Não deixes que ninguém te veja longe de ti
Das tuas palavras
Das tuas aspirações
Dos teus desejos
Dos teus sonhos
E sonha, sonha acordado e a dormir
Sonha o teu sonho
Mostra-te ao futuro que é agora
E sê tu próprio a poesia que pensas sonhar
Aquela que preenche o vazio com a emoção
Aquela poesia que constrói e destrói mundos
Que te faz a ser tu próprio
Entra em ti como gostarias de ser recebido
Dá ao teu dia uma hipótese única de ser um bom dia
Não duvides de ti nem um dia
Um dia preenchido pela dúvida será um dia a menos na tua vida
Abraça o mar todos os dias
Abraça-o, nem que seja usando a tua imaginação
Que importa ter se não ser?
Que importa pensar senão sentir
Sente!
Acima de tudo sente...
sexta-feira, agosto 03, 2018
Nem as palavras que se se apresentam aqui
Nem a tinta da máquina de escrever
Nem o papel branco
Nem sequer o fugaz computador anarquista
Talvez seja a experiência da vida
A barba branca
E as rugas nos olhos
Sim talvez seja a vida
É o tempo
E a aborrecida tarde de verão
Em que cai a saudade
E onde as palavras não caem
Não cabem
Nem sequer chegam a tocar a solidão
Sobrevive-se com força
Como se recomeçasse do infinito
E ainda assim foram criadas por mim estas palavras
Não sei como mas sei porquê
Se for poesia então não morre
Não morro
sexta-feira, junho 29, 2018
Não porque queira ou porque me digam para escrever
Mas simplesmente quando vivo um momento
Preciso de o registar de alguma forma
As palavras querem sair
Dos meus poros
Dos meus olhos
Da minha boca
E descem sobre mim sob forma de rabiscos
Eu preciso de uma forma de recordar
Então eu escrevo com as palavras que conheço
Para recordar, para viver
Chamem-lhe o que quiserem, poesia, prosa, texto, rabiscos
Eu preferia não lhe dar um nome
O que for é
Só quero descrever aqueles momentos
Aquela fase da vida que nunca mais se vai repetir
Para a recordar
Pode ser dentro de um dia, um mês, dez anos, não sei
Recordar aquele momento, aquela história que eu vivi
Aquele sentimento fica ali descrito no tempo
Durante anos
Como se ficasse congelado no espaço e no tempo
Como se fosse uma memória que eu pudesse aceder
Não mudo uma palavra no que escrevo
Sempre foi a minha regra
Não mudo uma única palavra
O que sinto sai escrito assim
Quando eu leio o que escrevo
Eu descongelo aquele momento só para mim no silêncio do meu ser
E vivo tudo outra vez com a mesma intensidade
Recordando só para mim aquele tempo
Porque é só meu
As palavras são só minhas
Muito minhas
quarta-feira, março 28, 2018
Se te amar
Com certeza será verdade
Pois não saberei olhar-te de outra forma
E se te amar
Serei teu
Assim como a água é da terra
E na minha vida vou querer-te
Todos os dias
Porque se te amar
Serei completo
E os dias contigo serão eternos
Com todas as horas e minutos
Se te amar
Vou dizer-te baixinho
Para que entendas todo o meu ser
E me escutes no teu interior
sexta-feira, março 23, 2018
Sem pressa desenho-te
Percorro com os meus dedos o teu corpo
Enquanto os teus olhos se debruçam nos meus
Um sonho utópico...
Foi nesta idade que o amor me foi buscar
Como um ato de coragem
Que alguém precisa de ter
E eu preciso de te ter
Sei porque te quero
Porque me fazes bem...
Quero-te por te querer também
E não te quero longe de mim um dia que seja
Pois não sei viver da saudade
Mas quando não estas aqui
Eu desenho-te neste papel branco
Para que possa tocar-te o rosto
E ver os teus olhos brilhar
Sentir-te perto de mim
terça-feira, março 13, 2018
Hoje é um dia
Em que te queria só para mim
Tocar-te no rosto e sentir-te
Fazer-te uma ternura ou um carinho
Sentir os teus braços no meu pescoço
Nascia em mim uma profunda primavera
Numa alquimia perfeita
Hoje não quero sair para a rua
Quero ficar aqui
Á espera que venhas
Que me despertes e me beijes
Me faças sonhar e divagar
Um fazer de não fazer nada
Um conto de não contar nada
Um ver-te mais que te ter
Mas só me resta pintar com palavras
O teu nome para que te sinta perto de mim
Pois entro num vazio que é só meu
Um vazio cheio de saudade
Cheio de nada
Tão densa
E misteriosamente minha
E eu passo por ela
Embriagado
Numa valsa de cristal
Onde as sombras se cruzam
Num ato quase angélico
Como se fosse um primeiro poema
Onde as palavras cantam
E as bocas se tocam
Num mistério nocturno
Onde o silêncio...
Esse se transforma num grito colectivo
E acaba numa combustão sagrada
segunda-feira, março 12, 2018
Quero-te e não estás
Preciso e não te encontro na noite
Prefiro não ter-te
A consumir-me desta maneira
Todo o teu amor será que pode ser meu?
E o tempo passa
E não estás aqui...
Encosto-me num sofá já cansado
E adormeço
Estou tão cansado de estar aqui
Se tiveres de ir
Tremo de medo
Desta solidão fria e amarga
Onde não te tenho
Entristece-me...
E por vezes prefiro não te ter
Este sonho que nos separa
Deixa-me louco
Pois penso em ti e não te tenho
E parece que tudo morre á minha volta
Talvez eu já não saiba amar como um homem forte
As palavras de amor já não me saem da boca
Que agonia
Apetece-me nascer como uma palavra escolhida
Para não estar só
Irremediavelmente só
sábado, março 10, 2018
Tenho saudades
Do leve e suave toque do teu beijo
Aquela doce sensação de te ter
É que renasceu-me a exaltação
E nesta noite de sonhos
O tentador toque dos teus olhos
Não me larga
Não me deixa
Só me consome
E nesta profunda distância
Onde a luz desmaia
Recordo-me de ti
Essa imagem fugida que quero alcançar
Não me satisfaz a fome de te ter
Quero-te
sexta-feira, março 09, 2018
De súbito os meus pensamentos foram-se
Numa clara noite fria e molhada
Mais uma que não te vejo
Nem o rosto me sai da mente
E as vozes interiores que falam
Para não se calarem com o tempo
Dizem-me que eu sou do mundo
Mas eu sou teu
Fico num canto relembrando os dias
Aqueles que nos vimos
Fugazes mas doces
Talvez os meus olhos estejam adormecidos
Na recordação do teu olhar
A verdade é que te quero
Muito mais do que um simples momento
E a utopia no meu pensamento
Deixa-me sonhar mais alto
E não me deixa sossegado
Pois tenho sido um homem simples
Errante no amor mas com paz interior
Repouso assim o meu olhar no vazio
Que me leva a ti
Aos teus olhos
Tua boca
Teu corpo
E mordo as palavras que te quero dar
domingo, março 04, 2018
Mesmo que eu não possa ver a minha poesia
Com os meus olhos de olhar interrompido
E mesmo sabendo que no oceano da vida
A própria vida se perde
E se afasta de um tanto que é nada
De uma solidão quase salpicada de sal
Pois quem sou eu que não sei
Senão um fruto de uma adolescência perdida
Mas não são as lembranças que se arrastam
Entre magnólias e noites mal dormidas
Pois há cemitérios cheios de traças e carcaças
Cheios da vida que se foi
Cheios de nada
Cheios de ossos e granitos
E então porquê os mortos?
O que subsiste para além do nada que é tudo?
Mesmo que eu não possa ver a minha poesia
Com os meus olhos de olhar incessante
Escrevo ao miudo dentro de mim
E pergunto-lhe - "Que fazes aqui neste lugar?"
De paredes débeis e tristes que não te deixam sonhar
E vejo-me detido na humildade
Um coração envelhecido e afogado
Triste
Ressoa como um relógio de parede afinado
E o sangue corre e não pára
Nada pára
Nem o amor pela noite súbita
Mas diz-me porquê os poemas?!
Se não se comem as palavras
Se não se come o poeta
Se não se ama a vida
Os poemas ficam talvez para uma eternidade estupida
E as criticas mudas e idiotas dos homens simples
Nada me dizem
Senão anunciar-lhes que não viverão para além do tempo
As pessoas morrem os poemas não
E o estranho é pensar que com um unica vida
Não se aprende o suficiente
Mas escrevo para mim
quinta-feira, fevereiro 22, 2018
Então eu voo e caio
E desço assim pra baixo
Desorientado em direcção a nada
Debruço-me nos altares do mundo
E deixo-me cair
Na terra
No mar
Ninguém sabe quem era eu
E àquela altitude ninguém jamais ousou conhecer-me
Nem eu tampouco me mostrava
Mas em camara lenta
O sonho desmontava-se
E a tela escurecia
E eu sem ninguém saber
Caia desamparado pelo ar
Como que se voasse num caminho frenético
E as nuvens passavam por mim
E eu tornava-me uno com elas
sábado, fevereiro 17, 2018
Ah... quem sabe se não morri
E não estou ali mais
Não ouço ninguém
Nem vejo quem me queira ver
Porque o que é a presença do mundo
Senão sou eu neste momento
A minha palavra não passa de uma linha mal feita
Um "gatafunho" da minha alma
Que se expressa neste papel vazio
Pois não durmo nem quero dormir
Preto no branco
Onde o melhor improviso é espontâneo
Preciso disto para me identificar
Com o mundo
Caso contrário nem na morte adormeço
sexta-feira, fevereiro 16, 2018
Se um dia destes eu andar por ai
Sozinho pela rua
A ver as montras e as pessoas que passam
Sabe que penso em ti
E me cruzo contigo na minha cabeça
E as palavras que te quero dar
São tiradas do meu intimo
Onde só eu sei sonhar
Ao ritmo brusco da vida
Que se mostra desafinada e por vezes feliz
La no meio eu paro para ver as modas que passam
Para me rir das pessoas que se cruzam comigo
Mas não sabem quem sou
O que sou
O que penso
O que sinto
Se me vires sozinho na rua
Então toca-me e abraça-me
quinta-feira, outubro 12, 2017
Mesmo que fosse de noite
Estou cansado mas dava-te um beijo
Pintado de seda era como um chocolate na minha boca
E os meus braços abraçavam-te inteira
Quem me dera que viesses esta noite
Fazer amor nos meus braços
E a minha boca apaixonada embriagar-se na tua
Gostava que viesses hoje acompanhar-me
Nesta madrugada ainda quente de Outono
E me deixasses dormir perto de ti